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LAMPEDUSA
Na prisão da fortaleza
Onze deputados da Esquerda Unitária deslocaram-se a Lampedusa,
onde Itália tem o primeiro dos seus "centros de acolhimento"
para imigrantes ilegais. Este é o relato da visita a um campo
de concentração na Europa do século XXI.
Texto de Miguel Portas
Fotos de Julia Garlito y Romo
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| Os carabinieri proibiram
as fotografias durante a visita. Esta mostra o momento em que
os sem-papéis mostram os documentos que tiveram que assinar,
selando a sua detenção provisória |
Rodeiam-nos em círculos
cada vez mais estreitos. Há sempre alguém que fala
francês, arranha o inglês ou se desenrasca em alemão.
São quase todos jovens. Prematuros atirados para a vida adulta
no fio da navalha.
Formam-se círculos. Onde chega um deputado, forma-se um
pequeno ajuntamento. Num deles, a advogada que nos acompanha retira
um papel e pede a alguém que nele escreva o nome e nacionalidade
declaradas. Em seguida dá-lhe um número de telefone.
O círculo estreita-se imediatamente. Mãos frenéticas
descobrem naquele papel meio amarrotado o seu passaporte para a
vida. Impossível conter a ansiedade. Algumas folhas rasgam-se,
disputadas por mãos concorrentes. “Há para todos!”,
alguém diz. Mas não adianta. O círculo da advogada
continua a crescer. Visto de cima, deve parecer anárquico.
Visto de onde estamos, é danado.
Fazemos
o que podemos. Alguns dos deputados do GUE/NGL pegam em papéis
e afastam-se do círculo onde a esperança se distribui
em formato A4. Mas logo outros se formam. As canetas não
chegam. São apenas as nossas. Os cigarros também se
esgotam. Árabes, aquelas 197 almas estão habituadas
a fumar como chaminés. Aqui têm direito a 5 cigarros
por dia. O meu bloco de notas regista outras regalias: uma carta
telefónica de 5 euros por cada dez dias; 1 litro de água
diária por cada dois; 1 litro de leite por cada seis; e um
brioche pela manhã e macarrão ao almoço e ao
jantar.
Os duches são de água do mar, que outra não
existe ali. E a farmácia que trata das equimoses e problemas
de pele, só tem “burro”, ou seja manteiga de
cacau, para oferecer. Quanto a abcessos, pés inchados e maleitas
várias, Allah que trate.
Novecentos onde cabem duzentos
A maioria está ali, nas traseiras do aeroporto de Lampedusa,
há mais de um mês. O campo tem quatro camaratas pré-fabricadas,
cada uma com 40 a 50 camas com lençóis esfarrapados.
São as únicas sombras do lugar. Sombras metálicas,
que suportam temperaturas de 40 graus...
O lugar tem nome: “centro de acolhimento”. É
uma piada de mau gosto, claro. Não há, sequer, refeitório.
Para comerem, os “hóspedes” sentam-se no chão,
junto às grades do portão, com toalhas protegendo
as cabeças da impiedade do Sol. Líderes informais
garantem a disciplina possível naquelas circunstâncias.
Uma semana no centro equivale a um certificado de antiguidade.
Não há que fazer nem para onde ir. Exíguo,
o campo é inteiramente murado e rematado a arame farpado.
Numa das extremidades, um pedaço de chão tem lajes
de pedra lisa. É o lugar de oração, explica
um dos responsáveis. “Decerto por tolerância
e respeito, meu filho da puta”, estive para comentar. Mas
não disse. Não saiu. O humor negro não cola
ao lugar. “Aquilo” é a pior e a mais precária
das prisões que vi. Precisão: é um campo temporário
de concentração.
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| Francis Wurtz, líder
do GUE/NGL, tira notas das declarações dos sem-papéis
numa das camaratas do campo. |
Os deputados visitaram-no num “dia bom”. Cinco dias
antes, o campo tinha mais de 900 pessoas. Cinco vezes a lotação
máxima admitida. Fosse por causa da visita, fosse porque
esta é a regra em Lampedusa, os excedentes foram sucessivamente
transferidos para outros campos em Itália. Ou recambiados
para a Líbia. “Quantos foram para a Líbia, senhor
director?”, pergunta um de nós às autoridades
que nos receberam. “Não sabemos. Não sabemos
para onde vão os transferidos. Terão de perguntar
ao Ministro do Interior”. É mentira. Entre as centenas
de transferidos, tínhamos informação de boa
fonte que pelo menos 45 foram recolocados na Líbia. Aí,
são colocados noutros campos, enquanto aguardam repatriamento
para o Sudão ou para o Tchade. Uma nova odisseia. 800 quilómetros
de Via Ápia, pela estrada dos sudaneses, atravessando o Sahara
em condições de transporte que não é
difícil imaginar. Impróprias até para gado.
“Nós também somos africanos”
Ao silêncio dos responsáveis, responde o protesto
dos maghrebinos do campo. “Porque é que os negros são
melhor tratados do que nós?”, pergunta o primeiro com
quem falámos. “Porque é que eles não
ficam aqui mais de dois ou três dias e nós estamos
cá há mais de um mês?”, acusa outro. “Nós
também somos africanos. Mas só os negros têm
o direito de ficar na Sicília, na Europa, com cigarros e
trabalho”, acrescenta um terceiro. É tramado. Aquela
gente pensa que os sudaneses e tchadianos são privilegiados
e que os italianos praticam o racismo contra os árabes.
Como falar verdade sem decepar as esperanças ou alimentar
falsas ilusões? Um garante ter diploma de Matemáticas.
Outro diz que era mecânico no seu país e que quer “ajudar
a Europa”. A partir de certo momento, as conversas misturam-se
e sobrepõem-se. Cada um tem a sua história, e pouco
interessa o grão de verdade que contenha. São fragmentos
e farrapos de uma só história. A história de
quem parte, sabendo que arrisca a sua vida no mar; que se salvar,
o mais provável é acabar onde agora se encontra, em
Lampedusa. Porque tentam, apesar de saberem? Porque há sempre
alguém que alcança. Porque, tomada a decisão,
não se olha mais para trás. Porque fintar o destino,
ousar, é mais do que sobreviver.
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| Francis Wurtz
presta informações à saída do campo. |
Mesmo ali, sentindo na pele como a Europa os trata, continuam a
acreditar. Um cresceu na Alemanha. Fala alemão fluente. O
seu pai, líder religioso da comunidade imigrante, reenviou-o
para Marrocos. “Regressas para estudar e depois voltas”,
disse-lhe. Ele tentou. Tentou de barco, depois de terem falhado
as soluções legais. Tenta-se sempre. Outro confessa
ter sido o único sobrevivente de um barco com 27 tripulantes.
O resto foi engolido pelo Mediterrâneo. Ele salvou-se “porque
Allah é Grande e Misericordioso e assim o quis”. Protegido
por deus, só pode acreditar. A Europa é sua Atlântida,
o lugar que na Terra mais se assemelha ao paraíso. Mesmo
ali, em Lampedusa, é assim que pensa. Como não, se
Allah o salvou e trouxe até à primeira ilha da Europa,
à antecâmara da Promessa?
Como dizer-lhes que os chefes desse lugar de sonho não os
querem? Não os querem a eles, aos maghrebinos, nem aos sudaneses
e aos tchadianos? Que estes, longe do privilégio, nem a 30
dias de “acolhimento europeu” têm direito? Que
partem dali antes deles, porque as autoridades do campo não
podem arriscar um estado de permanente sobrelotação
do campo, sem esperarem que uma tragédia revele ao mundo
a ignomínia da sua própria desumanidade? Como dizer-lhes
que os maghrebinos são, entre os que chegam, seleccionados
para aguardarem em Lampedusa com antecipada guia de marcha para
os seus países de origem? Que são eles, e não
outros, que aí aguardam porque a ilha fica abaixo do paralelo
36, à vista de Monastir, na Tunísia? Mesmo à
mão para repatriamentos ao abrigo dos “acordos operacionais”
que a Europa fez com as chancelarias dos países do Maghreb?
O círculo infernal da mentira
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Miguel Portas entrevistado
pela RAI
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Isso eles pressentem. Uma semana antes, representantes da Marrocos
estiveram no campo. Pressionando para que os marroquinos reconhecessem
a sua nacionalidade. Debalde. Todos os que ali estão, de
pele branca, são palestinianos ou iraquianos. Os seus nomes
são igualmente singulares: Moahmed Salim, Abdu Ramallah,
Youssif Ramadan e por aí adiante...
Todos mentem. O preço da ousadia é a mentira. Antes
de embarcarem, livram-se de qualquer documento que tenham. E os
traficantes esvaziam os seus bolsos das últimas notas. Todos
sabem que a identidade e a nacionalidade são a última
coisa que podem revelar se forem apanhados.
No campo são submetidos a identificação primária.
Com recurso a intérpretes de árabe, a polícia
procede à primeira despistagem. Não é difícil
perceber quem mente porque todos mentem. As origens detectam-se
nos sotaques. Mas a polícia age a preceito. Umas quantas
perguntas geográfico-culturais sobre os lugares da nacionalidade
declarada, chegam para detectar contradições e confirmar
o que já se sabe. Mas como não há modo de verificar
a verdadeira identidade, o entrevistado acaba por assinar a sua
detenção provisória em italiano, devidamente
comprovada por um Juiz de Paz e rubricada com nome falso. A validade
legal de tudo isto é obviamente nula, mas que importa? A
Europa prova assim que respeita os direitos humanos e a Itália
que é um Estado de Direito...
Em Lampedusa, a Europa transforma a coragem em delinquência.
60 dias depois da chegada aqueles homens serão repatriados
para a Tunísia, para a Argélia ou para Marrocos. As
autoridades desses países, já fora da Europa, procedem
à identificação definitiva. Perguntámos
aos carcereiros se tinham conhecimento de algum “erro de entrega”.
Olharam uns para os outros e alguém teve, finalmente, a gentileza
da verdade: “em Maio creio que recebemos um caso de volta”...
DOCUMENTOS:
Relatório
da visita da Delegação do GUE-NGL ao CPT de Lampedusa
JRS-Europe
Document on administrative detention of asylum-seekers and irregular
immigrants in Europe (12 July 2005)
AMESTY
INTERNATIONAL - ITALIE - Lampedusa, l’île des promesses
oubliées de l’Europe, 6.7.2005
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