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Sinn Féin e
os difíceis caminhos da paz
Texto de Renato Soeiro, em Dublin
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Um Congresso
singular
DECORREU NO FIM-DE-SEMANA de 4 a 6 de Março,
em Dublin, o congresso do Sinn Féin.
Durante três dias os congressistas
discutiram e votaram 380 moções, além
de uma série de emendas. As moções, agrupadas
em 18 grandes temas, são de pequena dimensão,
algumas de um parágrafo apenas, e são apresentadas
por estruturas de direcção ou de base, por militantes
ou grupos de militantes. Os congressistas são concretos
- a favor ou contra em cada ponto - e vota-se, uma a uma,
no fi m de cada tema.
Este método de trabalho, praticado
também por outros partidos de esquerda do Norte da
Europa, permite aos delegad@s uma maior proximidade em relação
às decisões, precisas e delimitadas. Mas como
não há bela sem senão, a coerência
entre as escolhas é difícil de garantir.
Assim, com periodicidade anual e de forma
inteiramente aberta à comunicação social,
@s militantes decidem a linha do partido nestes congressos,
a que chamam em gaélico Ard Fheis (lêse ardéch).
Os órgãos dirigentes nacionais são eleitos
em votação secreta durante o congresso, em listas
separadas masculinas e femininas, para assegurar a paridade.
Quem viu esta instância a funcionar
e a decidir sem soluções predefi nidas por outrem,
não pode deixar de sentir alguma revolta ao ver nos
canais de televisão internacionais John Bruton, o novo
representante da União Europeia junto dos EUA e ex-primeiro-ministro
da Irlanda, afi rmar que no Sinn Féin as decisões
“são impostas de fora”. A União
não deveria permitir que John Bruton utilize o seu
novo posto institucional para efeitos de propaganda doméstica. |
O
Sinn Féin (SF) celebrou este ano o centenário da sua
fundação, que ocorreu em Dublin, hoje capital da república
do Sul. É o único partido do complexo cenário
irlandês que elaborou um “livro verde” para toda
a ilha, em coerência com a sua estratégia para uma
reunifi cada “Irlanda de iguais”, livre, democrática
e republicana.
Recentemente, desafi aram o governo de Dublin a apresentar, também
ele, um livro verde para a unidade nacional e para a construção
democrática e pacífi ca de uma sociedade que inclua
todos os irlandeses, aposta que nenhum governo do Sul fez até
hoje.
O congresso realizou-se, contudo, sob fortíssima pressão
dos meios de comunicação de ambos os lados da fronteira.
Em parte, tal explica-se como reacção preventiva à
grande subida eleitoral que o Sinn Féin tem tido, não
apenas nos 6 condados do Norte, mas também nos 26 condados
do Sul. Com efeito, nas últimas eleições europeias,
elegeram pela primeira vez duas deputadas para o Parlamento Europeu,
que viriam a integrar o GUE/NGL. Bairbre de Brun, eleita pela Irlanda
do Norte, alcançou 26,3%, fi cando em segundo lugar, logo
atrás dos unionistas, com 32%. Mas no Sul, na República
da Irlanda, o Sinn Féin também cresceu, elegendo em
Dublin Mary Lou McDonald, com uma votação de 14,3%.
Globalmente, os republicanos são hoje o terceiro maior partido
da Irlanda do Sul, com 11,3%, ultrapassando os Trabalhistas. Têm
ainda muitos eleitos no poder local. Esta consolidação
tem gerado muita preocupação e mesmo algum pânico
entre os unionistas do Norte e entre as forças de direita
e de centro no Sul.
O caso McCartney
Para a atitude da comunicação social irlandesa e
internacional, contribuiu o “caso McCartney”. O que
se passou a 30 de Janeiro, num pub de Belfast, pesa sob a política
republicana. Na sequência de ditos desagradáveis sobre
um grupo de mulheres, uma briga violenta que transborda para fora
do bar e redunda no assassinato de um dos presentes: Robert McCartney.
A história nada teve de política e em qualquer país
seria um caso de polícia. Mas na rixa estiveram envolvidos
vários membros do movimento republicano que, depois da tragédia,
teriam roubado a cassete de video-vigilância, apagado vestígios,
e intimidado os presentes para não testemunharem sobre os
factos. Daqui à acusação que o IRA seria responsável
pelo crime, foi um pequeno passo. De imediato, a direcção
do IRA declarou não ter tido nada a ver com o incidente e
procedeu a um inquérito interno, que con- fi rmou o envolvimento
de três dos seus membros. A organização condenou
veementemente a sua atitude e expulsou três militantes. Um
deles prestou depoimento às autoridades e os outros dois
foram instados a assumirem as suas responsabilidades. O IRA reafi
rmou o apoio às exigências da família e declarou
não tolerar que alguém use o nome da organização
para intimidar testemunhas que queiram ajudar à descoberta
dos criminosos. Mas o mal estava feito.
Os ataques crescem. O apoio
também.
O SF, que foi também atacado devido a este caso, tomou uma
posição muito clara. Gerry Adams afi rmou, no Ard
Fheis, que não descansará enquanto “os que mancharam
a causa republicana não forem levados à justiça”.
Sem retórica, explicou aos delegados que não poderia
fazer campanhas sobre as vítimas dos britânicos e dos
paramilitares unionistas, se não fosse igualmente claro na
exigência de justiça neste caso. Aliás, o momento
mais emotivo do congresso foi quando o presidente entrou na sala
na companhia das irmãs McCartney e a assembleia aplaudiu
de pé a família da vítima e a sua presença
confi rmando o papel que o SF está a ter na descoberta e
castigo dos autores do crime.
Estes acontecimentos ocorreram em cima de eleições
intercalares num círculo eleitoral da Irlanda do Sul: Meath,
pelo que o tom das acusações contra os republicanos
visava em boa parte o esvaziamento eleitoral da sua base de apoio.
Em Meath, o Sinn Féin tinha tido 3,53% em 1997 e 9,43% em
2002. Com estas circunstâncias verdadeiramente anormais a
rodearem a campanha, muito se especulou sobre os resultados. Mas,
mais uma vez, o apoio do SF cresceu, obtendo esta semana em Meath
12,25%, confi rmando-se como o terceiro partido, à frente
do Labour.
A importância deste resultado é, contudo, maior, porque
o processo de paz se encontra bloqueado. A leitura dos resultados
pesará na avaliação estratégica dos
britânicos e dos unionistas que, a Norte, querem difi cultar
e/ou impedir a participação dos republicanos no futuro
governo. E até mesmo no Parlamento de Londres (onde o SF
ganhou 4 lugares nas últimas eleições), que
acaba de votar a retirada do direito do SF às comparticipações
fi nanceiras.
Mas o tempo corre contra eles. A favor da paz conta o caminho já
percorrido e ainda a vontade expressa do povo da ilha.
rsoeiro@europarl.eu.int
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