Junho 2005
 

ENTREVISTA
Alain Gresh: «A China é o alvo principal dos Estados Unidos»

ALAIN GRESH É REDACTOR DO LE MONDE DIPLOMATIQUE E UM PROFUNDO CONHECEDOR DA SITUAÇÃO DO MÉDIO ORIENTE. NESTA ENTREVISTA REALIZADA PELO JORNALISTA CHRIS DEN HOND GRESH ABORDA AS PRINCIPAIS ESTRATÉGIAS DO IMPÉRIO DE BUSH

 

O plano dos Estados Unidos para o Médio Oriente está em vias de realizar-se?
O plano foi posto à prática antes de ser anunciado. A administração Bush tem um plano muito claro para o controlo da região, a destabilização de regiões de regimes considerados hostis, como a Síria e – eu acredito que o alvo prioritário é o Irão. Ao mesmo tempo, este plano debate- se com muitos obstáculos concretos, nomeadamente no Iraque, onde o exército americano tem a tendência para se enredar, cada vez mais, em vez de resolver o problema. Apesar da nomeação de um governo e da realização de eleições, ninguém vê a saída para a crise. Pelo contrário, assiste-se a uma espécie de implosão regional e confessional do pais.

O que define este plano americano para o Médio Oriente?
O plano tem um objectivo estratégico, que é o de sempre dos Estados Unidos desde há muito tempo, de controlar o petróleo e evidentemente controlar politicamente a região. No entanto, com esta nova administração Bush há elementos novos. Em primeiro lugar, a instalação de bases militares do Médio Oriente à China. Eu creio aliás que a China é o alvo principal dos Estados Unidos. Em segundo lugar, há uma fracção do governo dos Estados Unidos que fez da “democracia” e da mudança de regime um objectivo importante. Visam principalmente regimes inimigos – a Síria, o Irão e talvez o Líbano –, mas, de uma certa maneira, Bush pode também atingir regimes aliados, como o Egipto e a Arábia Saudita, apesar de não se ver a administração americana fazer grandes pressões ao Egipto para que ele tenha verdadeiras eleições democráticas.

Com a morte de Yasser Arafat e a eleição de Mahmoud Abbas, as tréguas, o esmagar da Intifada, verifi ca-se uma normalização apressada das relações dos muitos Estados árabes com Israel. Esta corrida normalizadora faz parte do plano americano?
A vontade americana é, primeiramente, apaziguar o confl ito israelo-palestiniano. Quando diz «o esmagar da Intifada», é necessário relativizar a afirmação. Houve um esmagamento militar e a sociedade palestiniana pagou um preço muito caro pela escalada militar da Intifada. Mas, ao mesmo tempo, a vontade política dos palestinianos não foi quebrada. E essa vontade é um obstáculo importante a certas soluções preconizadas, inclusive por Abou Mazen (Mahamoud Abbas). A opinião pública palestiniana é favorável às tréguas porque isso permite uma vida social mínima, mas ela não está disposta a renunciar aos seus direitos fundamentais tal como eles eram enunciados por Arafat. Dai que se possa dizer que se assiste a umas tréguas, mas não ao fi m do conflito.

É também verdade que sob pressão americana há vários Estados árabes que normalizam relações com Israel. A Tunísia convidou Ariel Sharon para a visitar em Setembro, o Qatar defendeu que Israel fosse eleita como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Estes sinais enfraquecem as posições dos palestinianos, mas a luta travase sobretudo sobre o terreno, e lá os israelitas vivem num impasse: a população palestiniana é maioritária sobre a terra histórica da Palestina. E enquanto Israel não conseguir responder a esta questão, não haverá solução defi nitiva do conflito.

Qual é o balanço da guerra no Iraque ? Está a ser uma vitória estratégica para os Estados Unidos, o controlo do petróleo está assegurado?
O domínio dos recursos petrolíferos da região necessita de importantes efectivos militares. O Iraque de Saddam Hussein sempre vendeu o petróleo aos americanos. Neste momento, toda a gente apercebe-se que a intervenção americana no Iraque destabilizou o mercado petrolífero, mais do que ajudou os Estados Unidos. O barril de petróleo está perto do número redondo de 50 dólares e a produção iraquiana ainda não se recompôs da guerra. Se o objectivo de Bush era ter o controlo do petróleo, a guerra é ainda um fracasso.

É evidentemente uma vitória ter derrubado o regime brutal e ditatorial de Saddam Hussein que era odiado pela grande maioria dos iraquianos. Mas esse facto tem custado um preço terrível: dois anos depois da intervenção americana não se vê fi m ao confl ito. E o mais inquietante é a transformação dos confl itos políticos no Iraque em lutas de carácter confessional. Desde o início que os Estados Unidos viram o Iraque como um país de três confi ssões e etnias: os chiitas, os sunitas e os curdos. Encorajaram a divisão comunitária do país. Criaram um sistema equivalente ao do Líbano.

Alguns vêem nesse facto uma espécie de conspiração americano-israelita para dividir a região em Estados confessionais. Esta política apenas vai levar à desestabilização e enfraquecimento do Iraque. Os Estados Unidos parecem apostados em impedir a existência do Iraque como potência regional, como se passava nos anos 80-90. Neste sentido, a transformação do Iraque em Estado federal convém-lhes. No entanto, eles desencadearam uma dinâmica de confl ito que difi cilmente será parada. Neste novo Iraque, os massacres entre chiitas e sunitas sucedem-se.

É possível afirmar que o principal ganho dos Estados Unidos no Iraque é de carácter geoestratégico: o cerco do Irão, os recursos energéticos do Mar Cáspio e mesmo a pressão sobre a China?
Sim, mas ainda é muito cedo para o dizer. Os Estados Unidos ocupam o Iraque, cercam o Irão, mas ao mesmo tempo têm que ter em conta que o Irão tem um peso crescente no interior do Iraque através da comunidade chiita; portanto desse ponto de vista as coisas mantém-se muito complicadas.

Militarmente, o essencial das forças americanas disponíveis encontra-se no Iraque. O seu número e importância faz com que os Estados Unidos sejam incapazes de organizar a intervenção militar num outro país. E isso é um dado estratégico. É verdade que se verifi ca a criação de bases militares na Ásia Central em redor do Iraque, mas será estável ? É muito cedo para o dizer. Os americanos ainda não defi niram uma verdadeira estratégia de saída da guerra.

O barril de petróleo
está perto do
número redondo
de 50 dólares
e a produção
iraquiana ainda
não se recompôs
da guerra. Se o
objectivo de Bush
era ter o controlo
do petróleo, a
guerra é ainda um
fracasso.

Mas se os Estados Unidos tivessem a intenção de instalar um regime amigo, aliado estratégico que podesse reconhecer Israel, esse objectivo estaria fora do seu alcance. Há uma maioria de chiitas que são contra uma política de atentados armados contra os norte-americanos e que defendem uma política de negociações. No entanto, a hostilidade aos americanos é muito generalizada na população chiita, o que faz com que os objectivos americanos possam estar comprometidos a médio prazo. No Líbano a questão é um pouco diferente. Ai foi sobretudo a França que foi o elemento motor da resolução 1559 que pedia a retirada das tropas sírias. A seguir, deu-se a multiplicação dos erros sírios que permitiu esta escalada internacional e o assassinato do antigo primeiroministro Harriri criou uma situação insustentável para a Síria. Há uma página que se virou na história libanesa, as tropas sírias vão-se embora depois de 30 anos de presença militar. Isso enfraqueceu a Síria. Mas no plano interior eu estou surpreso – estive no Líbano há dias – pelo facto de a política libanesa ser a mesma de há 30 anos: os mesmos líderes, uma vida política completamente organizada em torno das confi ssões, das tribos e dos clãs. Os fi lhos sucedem aos pais. Estamos perante um sistema que não tem nada de democrático.

Como é que isso vai terminar? Não haverá estabilidade no Líbano se não houver estabilidade regional. A principal questão é o desarmamento do Hezbollah. E não há nenhuma hipótese que isso aconteça. Por razões simples: o Hezbollah não aceitará e o exército libanês não tem capacidade de o fazer, até porque a maioria dos seus membros são chiitas que cooperam com o Hezbollah na sua luta contra Israel. E não é previsível uma intervenção dos Estados Unidos para o desarmar.

Se do ponto de vista libanês as coisas não ficaram grandemente alteradas, é verdade que os norte-americanos tiveram um certo sucesso em enfraquecer o regime sírio que eles consideram inimigo. Os sírios cometeram um conjunto importante de erros que prejudicou a sua presença regional e debilitou as suas relações com a Europa.

Qual é o ponto da situação das relações da Turquia e dos Estados Unidos, nomeadamente em relação à questão curda, no contexto da intervenção americana no Iraque?
A Turquia vê com inquietação o que se passa no Iraque, porque a autonomização da região curda sublinha ainda mais o problema dos curdos na Turquia. As autoridades turcas interrogam-se sobre o que se vai passar quando houver uma entidade curda que controle parte do petróleo da região e que será auto-suficiente.

O governo turco está sujeito a contradições muito diversas. Tem a tentação de esmagar a rebelião curda com incursões militares que verdadeiramente nunca pararam. Mas ao mesmo tempo a Turquia é submetida à pressão de parte do establishment turco para aderir à União Europeia.

Como vão conseguir os turcos conciliar o respeitar os direitos humanos para aderir à União Europeia e simultaneamente continuarem a fazer operações armadas contra os independentistas curdos?
É uma questão que o governo turco tem de responder, com a certeza de que não pode jogar nos dois tabuleiros. Para além disso, a Turquia tem muitos problemas de direitos humanos a resolver, não só a questão curda. É um caminho difícil a percorrer.

Eu penso que pela maioria da direcção turca não há outra escolha que aderir à União Europeia. É uma escolha estratégica. A adesão à União Europeia é importante por razões económicas e políticas para que a Turquia renuncie a ela, mas será um longo caminho. De qualquer forma, a adesão só está prevista para daqui a quinze anos.

 

É preciso resolver o problema com a guerrilha para facilitar a evolução do processo político na Turquia?
Não sou eu que decido dissolver ou não dissolver a guerrilha, este é um assunto dos curdos. É necessário um processo de reconciliação nacional. É preciso que os inimigos se sentem a conversar. Isso só é possível com uma mudança da atitude do governo turco em relação aos curdos, em geral, e às forças políticas curdas: é necessário uma negociação. Podemos ver uma discussão directa na Irlanda do Norte, mesmo que isso ainda não tenha dado grandes resultados, há tendência que o mesmo suceda com ETA, no País Basco. Na Turquia devem ser feitos passos neste sentido, mesmo que seja difícil, até porque as elites turcas sempre tiveram uma visão muito centralizadora e têm grandes dificuldades de adaptar-se.

O líder preso do Partido dos Trabalhadores do Curdistão, Abdullah Ocalan declarou recentemente que o conceito de Estado nação está ultrapassado e que é necessário caminhar para um confederalismo democrático, tendo como referência o antigo Império Otomano e as suas fronteiras pouco marcadas. Essa proposta pode ser útil para o futuro?
No Próximo Oriente o problema real chama-se “as minorias”. Algumas vezes estas minorias são uma maioria num determinado território. Os chiitas são maioritários em determinados sítios e minoritários em outros.

O Império Otomano tinha, contrariamente ao que se diz, aspectos muito positivos de coexistência entre povos. Houve e

  Hoje em dia, é
mais difícil viajar
nos países árabes
do que durante
o colonialismo
nos anos 30. Isto
não é normal.
É necessário
reconstruir de uma
forma confederal
este espaço,
tendo como base
a unidade árabe,
e as aspirações
concretas dos seus
cidadãos.

videntemente períodos de massacres, mas globalmente a regra foi a coexistência reconhecendo um conjunto de direitos colectivos às diferentes populações. Infelizmente, nesse período, não existiam direitos individuais. Hoje em dia, qualquer solução encontrada terá de contemplar também um conjunto de direitos individuais. Esta é a grande diferença em relação ao tempo do Império. Deve ser possível não querer ser obrigado a pertencer a nenhum grupo, chiita, curdo, árabe, sunita. Pode-se ser de origem chiita no Iraque e não ser crente, por exemplo. Tem que se ter o direito de poder querer ser defi nido como iraquiano e não como membro de qualquer de uma das etnias e confissões. A ideia de cooperação e de fronteiras abertas, de direitos colectivos que respeitem os direitos das minorias à sua língua e cultura é boa, mas não é necessário encerrar as pessoas no seu grupo minoritário. No Líbano, as pessoas são forçadamente chiitas ou maronitas. E isso torna-se insuportável.

A construção da União Europeia com as suas fronteiras abertas entre Estados membros pode ser um modelo para ultrapassar os conflitos no Médio Oriente?
Mesmo na União Europeia há problemas com nacionalismos. A construção europeia pode ser uma perspectiva, mas tem que ser alicerçada passo a passo. Neste momento, é mais fácil um árabe viajar na Europa do que num outro país árabe. Hoje em dia, é mais difícil viajar nos países árabes do que durante o colonialismo nos anos 30. Isto não é normal. É necessário reconstruir de uma forma confederal este espaço, tendo como base a unidade árabe, e as aspirações concretas dos seus cidadãos.

Diz-se que quando o petróleo acabar daqui a 50 anos, os conflitos também vão terminar na região. Está de acordo com esta previsão?
Eu não acredito que o petróleo vá terminar nos próximos 50 anos. Há muitas previsões que se revelam falsas. Mesmo que por razões ecológicas seja positivo que vamos caminhando para o fi m do petróleo. E claro que o desaparecimento dos poços de crude vai tornar a região mais normal e menos sujeita a intervenções entrangeiras. O problema é que as guerras se auto-alimentam e tornam-se confl itos sem fim.

Não é muito pessimismo?
Não, acredito que há uma aspiração democrática no Médio Oriente. Sente-se a vontade de sair do beco sem saída que se transformou a região. Há mesmo pessoas em Israel que tomaram consciência que é impossível continuar a viver assim. Há alguns elementos positivos na região, mas infelizmente os elementos externos continuam a ser demasiado importantes, nomeadamente a política norte - americana, e a esse respeito só se pode ser muito pessimista.