ALAIN GRESH É REDACTOR DO LE MONDE DIPLOMATIQUE E UM PROFUNDO CONHECEDOR DA SITUAÇÃO DO MÉDIO ORIENTE. NESTA ENTREVISTA REALIZADA PELO JORNALISTA CHRIS DEN HOND GRESH ABORDA AS PRINCIPAIS ESTRATÉGIAS DO IMPÉRIO DE BUSH
O que define este plano americano
para o Médio Oriente? Com a morte de Yasser Arafat
e a eleição de Mahmoud Abbas, as tréguas, o esmagar
da Intifada, verifi ca-se uma normalização apressada das
relações dos muitos Estados árabes com Israel. Esta
corrida normalizadora faz parte do plano americano? É também verdade que sob pressão americana há vários Estados árabes que normalizam relações com Israel. A Tunísia convidou Ariel Sharon para a visitar em Setembro, o Qatar defendeu que Israel fosse eleita como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Estes sinais enfraquecem as posições dos palestinianos, mas a luta travase sobretudo sobre o terreno, e lá os israelitas vivem num impasse: a população palestiniana é maioritária sobre a terra histórica da Palestina. E enquanto Israel não conseguir responder a esta questão, não haverá solução defi nitiva do conflito. É evidentemente uma vitória ter derrubado o regime brutal e ditatorial de Saddam Hussein que era odiado pela grande maioria dos iraquianos. Mas esse facto tem custado um preço terrível: dois anos depois da intervenção americana não se vê fi m ao confl ito. E o mais inquietante é a transformação dos confl itos políticos no Iraque em lutas de carácter confessional. Desde o início que os Estados Unidos viram o Iraque como um país de três confi ssões e etnias: os chiitas, os sunitas e os curdos. Encorajaram a divisão comunitária do país. Criaram um sistema equivalente ao do Líbano. Alguns vêem nesse facto uma espécie de conspiração americano-israelita para dividir a região em Estados confessionais. Esta política apenas vai levar à desestabilização e enfraquecimento do Iraque. Os Estados Unidos parecem apostados em impedir a existência do Iraque como potência regional, como se passava nos anos 80-90. Neste sentido, a transformação do Iraque em Estado federal convém-lhes. No entanto, eles desencadearam uma dinâmica de confl ito que difi cilmente será parada. Neste novo Iraque, os massacres entre chiitas e sunitas sucedem-se. É possível afirmar
que o principal ganho dos Estados Unidos no Iraque é de carácter
geoestratégico: o cerco do Irão, os recursos energéticos
do Mar Cáspio e mesmo a pressão sobre a China? Militarmente, o essencial das forças americanas disponíveis encontra-se no Iraque. O seu número e importância faz com que os Estados Unidos sejam incapazes de organizar a intervenção militar num outro país. E isso é um dado estratégico. É verdade que se verifi ca a criação de bases militares na Ásia Central em redor do Iraque, mas será estável ? É muito cedo para o dizer. Os americanos ainda não defi niram uma verdadeira estratégia de saída da guerra.
Mas se os Estados Unidos tivessem a intenção de instalar um regime amigo, aliado estratégico que podesse reconhecer Israel, esse objectivo estaria fora do seu alcance. Há uma maioria de chiitas que são contra uma política de atentados armados contra os norte-americanos e que defendem uma política de negociações. No entanto, a hostilidade aos americanos é muito generalizada na população chiita, o que faz com que os objectivos americanos possam estar comprometidos a médio prazo. No Líbano a questão é um pouco diferente. Ai foi sobretudo a França que foi o elemento motor da resolução 1559 que pedia a retirada das tropas sírias. A seguir, deu-se a multiplicação dos erros sírios que permitiu esta escalada internacional e o assassinato do antigo primeiroministro Harriri criou uma situação insustentável para a Síria. Há uma página que se virou na história libanesa, as tropas sírias vão-se embora depois de 30 anos de presença militar. Isso enfraqueceu a Síria. Mas no plano interior eu estou surpreso – estive no Líbano há dias – pelo facto de a política libanesa ser a mesma de há 30 anos: os mesmos líderes, uma vida política completamente organizada em torno das confi ssões, das tribos e dos clãs. Os fi lhos sucedem aos pais. Estamos perante um sistema que não tem nada de democrático. Como é que isso vai terminar? Não haverá estabilidade no Líbano se não houver estabilidade regional. A principal questão é o desarmamento do Hezbollah. E não há nenhuma hipótese que isso aconteça. Por razões simples: o Hezbollah não aceitará e o exército libanês não tem capacidade de o fazer, até porque a maioria dos seus membros são chiitas que cooperam com o Hezbollah na sua luta contra Israel. E não é previsível uma intervenção dos Estados Unidos para o desarmar. Se do ponto de vista libanês as coisas não ficaram grandemente alteradas, é verdade que os norte-americanos tiveram um certo sucesso em enfraquecer o regime sírio que eles consideram inimigo. Os sírios cometeram um conjunto importante de erros que prejudicou a sua presença regional e debilitou as suas relações com a Europa. Qual é o ponto da situação
das relações da Turquia e dos Estados Unidos, nomeadamente
em relação à questão curda, no contexto da
intervenção americana no Iraque? O governo turco está sujeito a contradições muito diversas. Tem a tentação de esmagar a rebelião curda com incursões militares que verdadeiramente nunca pararam. Mas ao mesmo tempo a Turquia é submetida à pressão de parte do establishment turco para aderir à União Europeia. Como vão conseguir os
turcos conciliar o respeitar os direitos humanos para aderir à
União Europeia e simultaneamente continuarem a fazer operações
armadas contra os independentistas curdos? Eu penso que pela maioria da direcção turca não há outra escolha que aderir à União Europeia. É uma escolha estratégica. A adesão à União Europeia é importante por razões económicas e políticas para que a Turquia renuncie a ela, mas será um longo caminho. De qualquer forma, a adesão só está prevista para daqui a quinze anos.
É preciso resolver o problema
com a guerrilha para facilitar a evolução do processo político
na Turquia? O líder preso do Partido
dos Trabalhadores do Curdistão, Abdullah Ocalan declarou recentemente
que o conceito de Estado nação está ultrapassado
e que é necessário caminhar para um confederalismo democrático,
tendo como referência o antigo Império Otomano e as suas
fronteiras pouco marcadas. Essa proposta pode ser útil para o futuro? O Império Otomano tinha, contrariamente ao que se diz, aspectos muito positivos de coexistência entre povos. Houve e
videntemente períodos de massacres, mas globalmente a regra foi a coexistência reconhecendo um conjunto de direitos colectivos às diferentes populações. Infelizmente, nesse período, não existiam direitos individuais. Hoje em dia, qualquer solução encontrada terá de contemplar também um conjunto de direitos individuais. Esta é a grande diferença em relação ao tempo do Império. Deve ser possível não querer ser obrigado a pertencer a nenhum grupo, chiita, curdo, árabe, sunita. Pode-se ser de origem chiita no Iraque e não ser crente, por exemplo. Tem que se ter o direito de poder querer ser defi nido como iraquiano e não como membro de qualquer de uma das etnias e confissões. A ideia de cooperação e de fronteiras abertas, de direitos colectivos que respeitem os direitos das minorias à sua língua e cultura é boa, mas não é necessário encerrar as pessoas no seu grupo minoritário. No Líbano, as pessoas são forçadamente chiitas ou maronitas. E isso torna-se insuportável. A construção da
União Europeia com as suas fronteiras abertas entre Estados membros
pode ser um modelo para ultrapassar os conflitos no Médio Oriente?
Diz-se que quando o petróleo
acabar daqui a 50 anos, os conflitos também vão terminar
na região. Está de acordo com esta previsão? Não é muito pessimismo?
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