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aquela
segunda feira conseguimos autorização para entrar
na Faixa de Gaza. No mesmo dia, um miúdo de 16 anos, militante
da FPLP, fazia-se explodir em Telaviv, somando novas quatro vítimas
civis às cerca de mil que, do lado israelita, as estatísticas
registam desde 2000.
Se o miúdo fosse de Gaza, o nosso dia teria
sido diferente. Com alta probabilidade teríamos visto chegar
os helicópteros apache, de controlo remoto, descendo sobre
a casa da família do jovem, destruindo-a. A família
pagando pelo filho. Ou teríamos sido informados que os tanques
de guerra e os buldozzers estavam a chegar de novo às
margens do campo de refugiados de Jabalya. Vimos os efeitos da anterior
expedição de retaliação e punição,
no início de Outubro: quarteirões arrasados a bulldozer,
55 famílias desalojadas num deles, 160 mortos entre combatentes
e civis. Por causa das expedições punitivas, desde
o inicio da chamada “segunda intifada”, três mil
e seiscentos palestinianos perderam as suas vidas. Mais de 80% eram
civis. Numa população que não chega a quatro
milhões, é bárbaro. Imaginem 292 mil norte-americanos
mortos no Iraque, em quatro anos, e têm-se uma ideia... 
Eis, cruamente, como as coisas se apresentam:
a Terra Santa está em guerra. Essa guerra, de um e de outro
lado, é feita por miúdos. Uns, ultra-equipados, pertencem
a um dos mais bem preparados exércitos do mundo; os outros,
porque não têm helicópteros apache, nem caças
F16, nem tanques, usam rockets e o que têm à
mão – frequentemente os seus próprios corpos.
Nesta guerra calada, assimétrica e fatal, as primeiras vítimas
são os civis dos dois lados. Mas, acima de tudo, o que se
esvai é a esperança. É a sua ausência
que alimenta a dança macabra das bombas suicidas e das punições
colectivas. É a sua morte que faz a maioria dos israelitas
apoiar o novo muro da vergonha, e a maioria dos palestinianos reconhecer
como mártires os seus filhos.
A asfixia de um povo
Percebe-se o medo em Telaviv, porque é imponderável
a bomba humana num restaurante, num mercado ou numa espera de autocarro.
Como se sente, ó se sente, o sofrimento colectivo de uma
nação que vive prisioneira na sua própria terra.
Medo e revolta, eis os condimentos do sangue derramado, os obstáculos
maiores para uma solução política. Mas, porque
há um ocupante e um ocupado, só um hipócrita
ou um tonto pode, ante os factos mais recentes, imitar Pilatos.
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| O muro da Cisjordânia
Fonte: Jerusalem Task Force - NAD |
Comecemos pelo muro.
Ariel Sharom justifica-o em nome da segurança
de Israel e, de facto, o número das bombas suicidas caiu
em flecha. Sucede que andámos a visitá-lo e “aquilo”
nada tem a ver com uma muralha chinesa instalada nas fronteiras
da última guerra, a de 67. Os 255 Km de betão e arame
electrificado com duplas vias internas de controlo militar –
falta erguer outro tanto... – entram pelos territórios
que Israel atribuiu à Autoridade Palestiniana. Nalguns casos,
essas incisões penetram 30 e 40 Km na “terra do outro”.
Noutros casos, como em AbuDis, dividem a cidade a meio. AbuDis está
para Jerusalém como a Amadora para Lisboa. Dali vê-se
a abóbada doirada da mesquita de Al Aqsa. Imagine
agora que a sua viatura segue pela rua principal desta periferia
e que, de repente, um muro a interrompe. Não se perde só
a vista. De repente, na direcção de Jerusalém,
você deixa de ter acesso aos serviços, às escolas
e serviços de saúde que ficavam do “outro lado”.
E as visitas aos familiares passam a ser drasticamente limitadas.
Se fosse uma pura questão de “maldade” compreendia-se
melhor. Mas não. O Muro foi colocado naquele preciso lugar
para defender um pedaço de terra que Israel quer para um
futuro colonato. Assim se cercam as cercanias da cidade santa.
Em Qalqylia, mais a Norte, o Muro conta outra
história. Ele mura a cidade em volta, como na Idade Média.
Mas as muralhas medievais eram feitas pelos moradores. A de Qalqylia,
pelo contrário, foi erguida contra eles. O que ali sobrevive
é uma cidadeprisão de 80 mil criaturas, de onde se
sai ou entra ao ritmo marcado pelos carcereiros.
Qalqylia é como Gaza. Uma prisão
que os carcereiros deixam entregue aos prisioneiros. Um deles é
produtor de flores. Raid Hourani, 40 anos, tem a sua estufa
junto ao Muro. Está “nas mãos de Deus”,
ou seja, vende ao preço que lhe oferecem. A cobertura da
estufa parece um queijo gruyeree os soldados revistam-no
e decidem quando pode trabalhar. A terra que usa fica para lá
do Muro e os soldados cobram sempre que a carrega. Uma encomenda
para a feira de Nablus, a umas dezenas de quilómetros, pode
demorar dois dias a chegar. Morta, porque a vida ao ritmo dos checkpoints
não é compatível com o tempo das flores. Nem
com o dos homens.
Contra todas as declarações oficiais,
a evidência mostra que o Muro não foi erguido para
separar israelitas de palestinianos, mas para impedir a circulação
destes na sua terra. Aliás, ele não se compreende
sem os restantes 703 obstáculos que a ONU identificou na
Cisjordânia. Também eles se destinam a evitar o contacto
entre palestinianos.
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Aos bloqueios adicionem-se 60 checkpoints. Não
são fronteiras, mas barreiras internas destinadas a infernalizar
a vida das pessoas. Miúdos e miúdas de farda revistam
e revistam e revistam. |
Seguir viagem pelas estradas da Cisjordânia
é chocante. As cidades e vilas palestinianas distinguem-se,
à vista desarmada. Descem pelas colinas, têm minaretes
e o seu perfil é anárquico. Os colonatos, nos montes
ao lado, ocupam os topos, são rigorosamente ortogonais e
as suas moradias, todas iguais, têm, não raro, painéis
solares, árvores, jardins e piscina privativa. Muitas envergonham
as do Restelo, mas não é isso que mais impressiona.
O que choca são os acessos da vila palestiniana à
via rápida. Invariavelmente cortados. Ou lhes abriram uma
cratera à bomba ou os bloqueam com gigantescos cubos de cimento.
Aos bloqueios adicionem-se 60 checkpoints.
Não são fronteiras, mas barreiras internas destinadas
a infernalizar a vida das pessoas. Miúdos e miúdas
de farda revistam e revistam e revistam. Tudo funciona ao ritmo
de apresentação de cadernetas de diferentes cores,
que definem origens e horários de circulação.
A democracia de Israel nos territórios ocupados é
como a que conhecemos noutras paragens: bantustização
e apartheid.
A grande depressão
Há cinco anos, 130 mil palestinianos faziam
diariamente o seu vai-vem entre a Cisjordânia e Israel. Para
trabalharem. Esta fonte de rendimento representava, em 1999, 18
por cento do PIB da Palestina. Mas em 2003, o seu número
tinha descido para 40 mil e hoje deverão ser metade disso.
47 por cento dos palestinianos vive com menos de dois dólares
por dia e quase metade da população activa está
no desemprego. Os primeiros a sofrer com a bantustização
foram os mais pobres. Mas a política actual de Israel tem
por alvo principal as classes médias e instruídas
da sociedade palestiniana. Depois dos acordos de Oslo, os territórios
apresentaram taxas de crescimento anuais entre os 6 e os 15 por
cento. Mas de 1999 para cá, o PIB caiu 40 por cento e o rendimento
anual per capita passou de 1483 para 925 dólares. Entre a
grande depressão e o fim da liberdade de movimentos, a mensagem
para as classes médias é clara: imigrem, que a vossa
vida, aqui, só pode ser um inferno.
Não deliro. Grosso modo, tem sido esta
a política de Israel em Jerusalém onde, rua a rua,
as fronteiras do lado judaico vão avançando. Nas costas
do Hotel Embaixador, que já se situou no lado oriental, mais
uma rua foi conquistada por colonos de patilha enrolada. Eles hasteiam
no cimo das suas moradias o que aos palestinianos é interdito:
a bandeira. Exibem-na com orgulho e arrogância, como se aquilo
fosse “terra prometida”.
O peso da História
Os colonatos são uma invenção
trabalhista. Quem mais os incentivou, depois dos acordos de Oslo,
foi Barak. Crescem como cogumelos. 200 mil colonos nos territórios
ocupados são 200 mil novos problemas para qualquer agenda
de Paz. Os novos ocupantes não são palestinianos de
religião judaica, descendentes de famílias que toda
a vida tivessem vivido na Terra Santa. São imigrantes de
data recente, em particular russos que chegaram a Israel depois
da queda do outro Muro. Para qualquer palestiniano, são ladrões
de terra que, ainda por cima, gozam de isenção de
impostos e têm água garantida todos os dias. Cowboys
em terra de índios, portanto. É em seu nome que Israel
faz o que acabei de descrever. E é em nome da sua sobrevivência
que Ariel Sharom se dispõe a deixar cair os oito mil colonos
que ainda tem na Faixa de Gaza. Ali, eles não terão
água por muito tempo, nem condições de sobrevivência,
rodeados por um milhão e 300 mil palestinianos. Sharom retira
para salvar 200 mil e outros que venham no futuro para a Cisjordânia.
Que Paz é possível nestas circunstâncias?
Que Paz, quando em Washington teremos G.W.Bush por mais quatro anos?
Sinceramente não sei. Apenas sei que não se pode desistir
de tentar. A História é madrasta, está a mover-se
na direcção errada. Cada dia sem acordo torna mais
difícil qualquer outro, no futuro. Mas, ao mesmo tempo, não
serve qualquer acordo. Em Telaviv e em Ramallah, falámos
com os autores dos acordos civis de Genebra, de 2003. A iniciativa
só pode saudar-se. Num momento em que Ariel Sharom dizia
não existir interlocutor na Palestina, esses homens e mulheres
provaram que havia. E fizeram-no de um modo que a comunidade internacional
nunca tentara – procurando chegar a uma solução
estável que proporcione segurança e horizonte aos
dois povos. Oslo e o chamado “road map” são acordos
de processo, de caminho. Morrem antes de se afirmarem. Genebra,
pelo contrário, procura selar um destino e esse o seu mérito.
Mas, ao mesmo tempo, mostra como é difícil chegar
a uma Paz aceitável – e, por isso, mesmo exequível.
Também em Ramallah, falámos com
Marwan Barghoutti, que lançou recentemente a Iniciativa
Nacional Palestiniana, uma “terceira via” entre o Hamas
e a Fatah. Durante anos, coordenou uma rede não governamental
de cuidados de saúde, a única que no terreno procurava
responder à rede de serviços sociais religiosos que
os fundamentalistas criaram e que a Autoridade Palestiniana não
conseguiu implantar. M. Barghoutti “corre por fora”
e critica a militarização da segunda intifada. Ele
subscreveria o que nos disse Yussi Beilin, homem de Genebra
e líder de um pequeno partido de esquerda no Knesset:
“na violência, o Hamas será sempre o mais forte”.
Há dois anos, os voluntários e voluntárias
de M. Barghoutti marcharam pacificamente sobre os checkpoints.
A sua estratégia é a da desobediência civil
à ocupação. Mas não assinou os conteúdos
de Genebra. Na linha dos argumentos de Eduard Said, uma
Paz de pragmáticos não o convence. Do mesmo modo,
ouvimos em Gaza vários palestinianos de ONG’s valorizarem
Genebra, acrescentando ser necessário um formal pedido de
desculpas. Numa terra onde a memória é mais actual
que os telejornais, não se pode fazer tábua rasa da
História...
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| EM TELAVIV, na cave
de uma pequena moradia, temos encontro com dois militares: o primeiro,
engenheiro de software, foi paraquedista; o segundo é
ainda comando, com a patente de capitão.
David, 31 anos e 12 de exército,
com acções especiais no Líbano e nos territórios
ocupados, esteve “envolvido em acções indignas”.
Há três anos, recusou obedecer a uma ordem em Gaza,
acompanhado pelo seu pelotão. São dois dos 630 militares
que nos últimos anos se recusaram publicamente a cumprir
serviços nos territórios ocupados. O seu símbolo
é a estrela de David. Diferentemente de outros refujniks,
courage to refuse, é uma organização
patriótica, sionista. “Dirigimo-nos ao mainstream
israelita, explicando-lhes que a nossa segurança depende
da retirada dos territórios ocupados e de se fazer a paz
com os palestinianos”, sintetiza o primeiro; “Se tivermos
três a cinco mil refusers, o nosso primeiro ministro
passará a ter que ser mesmo muito criativo”, ironiza
o segundo. Por causa desta coragem, passam algum tempo nas cadeias,
apanham com um processo em cima, vêem as suas promoções
retardadas, mas continuam no activo. Porquê? “Se fossemos
expulsos, metade do exército seguir-nos-ia”...
Eles actuam nas guarnições, nas universidades, nos
kibutzes e em manifestações nos checkpoints.
Vão transformar-se num movimento aberto a civis e generalizar
a desobediência: “sem exército nos territórios,
não há como prosseguir a guerra”, garantem.
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