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TERRORISMO

FOTO: EPA/PETER MACDIARMID/POOL
Testemunho dos atentados de Londres - A escalada da barbárie

A DEPUTADA DO BLOCO ANA DRAGO ESTAVA EM LONDRES NA MANHÃ DOS ATENTADOS QUE CUSTARAM A VIDA A MAIS DE MEIA CENTENA DE PESSOAS.

Texto de Ana Drago

 

1. Londres, 7 de Julho. Perto das dez da manhã, no hotel de Tavistock Square ouvimos uma explosão. Alguns minutos depois, alguém vem dizer que há um autocarro desfeito, na praça frente ao hotel. Dirigimo-nos às janelas, mas rapidamente a polícia veda o edifício. Nas televisões, as notícias de diferentes explosões na cidade começam a invadir os canais noticiosos. Londres está sob ataque terrorista.

Algumas horas depois saímos do hotel para ver como Londres reagia ao ataque. A estranheza era a calma nas ruas. Milhares de pessoas caminhando a pé, contornando as áreas fechadas pela polícia, tentando chegar aos seus destinos numa mega cidade subitamente sem transportes. Sobrolho carregado, alguns olhares ansiosos na direcção dos lugares da tragédia, mas sem surpresa.

E a estranheza vinha daí. Do subentendido expresso na cara de quem caminhava: os londrinos pareciam saber que mais tarde ou mais cedo isto iria acontecer.

 

2. Esse entendimento partilhado pelos habitantes da cidade mais multicultural da Europa, não anula a repulsa. Nos atentados da manhã de Londres, morreram homens e mulheres de diferentes cores, raças e religiões. Porque a cidade é essa multiplicidade de origens e crenças, na avalanche de comunicações telefónicas diferentes idiomas fizeram as mesmas perguntas, tentando saber como se encontravam familiares, amigos e colegas. As vítimas do fanatismo foram todos eles, e creio que todos eles sentiram a náusea pelo injustificável assassinato de homens e mulheres que numa manhã cinzenta se dirigiam aos seus trabalhos.

 

3. Mas esta previsibilidade do ataque revela a falácia do discurso da guerra ao terrorismo global. Dizem-nos Blair e Bush que os ataques podem ocorrer a qualquer hora, em qualquer lugar. Perguntem aos londrinos: eles sabiam que iria ser ali mesmo, na cidade onde constróem o seu quotidiano, que o fanatismo iria atacar. Dizem que o objectivo dos bombistas é minar o combate que se faz em nome da democracia. Os números não mentem. Os 100 mil mortos do Iraque, estimativa por defeito, como a própria revista Lancet reconhecia num estudo publicado Outubro passado, não têm justificação “democrática” possível. Pelo contrário. A ocupação e a mortandade em massa no Afeganistão e no Iraque parecem apenas contribuir para alimentar o discurso e a capacidade de recrutamento da organização difusa da Al-Qaeda. O que os senhores da guerra tornam evidente é a desigualdade no valor das vidas consoante se caminha nas ruas de Londres ou nas de Bagdad. Por isso, os londrinos sabem que a guerra e a ocupação não tornaram mais segura a sua cidade dos mil dialectos. Pelo contrário. São eles os alvos na escalada de guerra e terror, que se alimenta a cada ataque.

4. As medidas de combate ao terrorismo propostas por Blair, novo Presidente do Conselho Europeu, não são novas. Foram preparadas nos últimos anos, à luz dos ditames do Patriot Act, o pacote de leis securitárias que Bush impôs no pós-11 de Setembro. Seguem a espiral do medo: até onde é que os cidadãos estão dispostos a prescindir da sua liberdade para se sentirem mais seguros? É essa a questão que Blair coloca à Europa. E é essa que devemos recusar, porque não há resposta aceitável, nem eficaz para a segurança na aceitação deste dilema.

Veja-se o que aconteceu nos EUA. O Patriot Act abriu caminho a escutas telefónicas sem autorização judicial, a buscas policiais sem necessidade de justificação, e a detenções e extradições secretas de suspeitos para países onde os métodos de interrogatórios são mais “desinibidos”. A ACLU – União Americana para as Liberdades Civis – estima que entre 3 a 5 mil pessoas foram detidas, deportadas ou forçadas a abandonar os EUA por questões relacionadas com terrorismo, sem que uma única acusação tenha sido formalizada. E depois temos Guantanamo. O grau zero da democracia.

De todas as promessas de Bush no pós-11 de Setembro, só a limitação e o controlo dos fluxos financeiros que correm pelos offshores ficou por cumprir. Quando, como sempre, seria seguindo o dinheiro que sustenta e patrocina a rede de fanáticos que se lhes dificultava a mobilidade e a agilidade nos ataques. O resto – o registo de comunicações privadas, as buscas, a criminalização difusa das comunidades muçulmanas – apenas ajuda a concretizar a profecia que se tenta evitar. Se a vontade securitária de Blair se impuser na Europa, viveremos em sociedade viradas para a vigilância permanente, e barricados contra um mundo que passaremos a encarar como mapa do choque de civilizações. E não estaremos mais seguros.

5. A segurança e a paz não virão do ataque às liberdades civis, nem das guerras e das novas ocupação coloniais no mundo árabe. Por isso, há que pôr travão à espiral terrorismo-guerra-securitarismo.

Como dizia corajosamente George Galloway, deputado do Respect na Câmara dos Comuns nesse mesmo dia, “temos que deixar de ocupar a terra e os países dos outros povos. Não parará estes fanáticos. Esses têm que ser encontrados e condenados por este crime odioso. Mas cabe-nos secar a base social onde se apoiam. E isso nós podemos fazer: promovendo justiça social global, processos de pacifi cação nos territórios em conflito, retirando do Iraque e do Afeganistão. Como podemos nós estabelecer a diferença entre mortos dos atentados de Londres e os mortos das bombas que os EUA e a Inglaterra lançaram sobre Falluja?”.