| BOLÍVIA
Devolver o país
ao povo
O DESPERTAR DA MAIORIA DA POPULAÇÃO BOLIVIANA, DE
ORIGEM INDÍGENA, É ACOMPANHADO
DE UMA FEROZ LUTA CONTRA AS IMPOSIÇÕES DO FMI E OS
INTERESSES DAS MULTINACIONAIS, PELA NACIONALIZAÇÃO
DAS RIQUEZAS DO PAÍS
Texto de Paul-Emile Dupret*
“A
Bolívia foi produtora de prata, estanho, borracha, e não
conseguiu reter a riqueza da exploração destas matérias-primas.
Agora res ta-nos a exploração do gás. É
a nossa última oportunidade, não a podemos deixar
perder”, garante Santos Ramirez, deputado e presidente da
Comissão de Economia do parlamento Boliviano.
Estas declarações foram pro feridas
a quando da visita ao parlamento Europeu do grupo da Esquerda Europeia
(GUE), juntamente com outros delegados do MAS, o partido do líder
indígena Evo Morales. Entre os representantes do MAS estavam
Leonilda Zurita dirigente agrá ria que liderou a marcha até
La Paz e Aurélio Ambrosio, deputado, líder tradicional
que milita há muito tempo no despertar indígena para
a participação política.
À exploração colonial das
matérias-primas, somou-se desde há 20 anos, a aplicação
das clássicas “recomendações” do
FMI e outras agências financeiras: privatização
dos serviços públicos (caminhos de ferro, telefones,
serviços de luz, água, linhas aéreas e claro
o gás…) e abertura dos mercados aos produtos subsidiados
da agricultura dos países do norte. Estas medidas levaram
a um empobrecimento acelerado da população. Em menos
de 15 anos o rendimento médio das famílias camponesas,
40% da população, baixou para metade. Anualmente vão
à falência 16 mil pequenas explorações
agrícolas. Nada disto impediu os dirigentes da Bolívia
de apoiar uma supressão total das ajudas aos camponeses na
reunião da OMC em Cancún…
No entanto, contra esta burguesia que pretende
obter rendimentos à custa de desbaratar as riquezas do país;
têm vindo a crescer os movimentos sociais com a reivindicação
da participação política da maioria indígena
tradicionalmente excluída, e da recuperação
dos recursos naturais para o bem-estar dos bolivianos.

Em Cochabamba, a contestação generalizada
da população conseguiu expulsar as companhias estrangeiras
que haviam beneficiado da privatização da água,
decretada pelo FMI, entre as quais a Bechtel, multinacional também
muito activa no Iraque. Uma batalha semelhante está a ocorrer
no município do El Alto, um bairro popular que domina La
Paz, para recuperar a propriedade pública da distribuição
da água, privatizada a favor das Aguas de Ilimano, uma filial
da francesa Suez.
Foi no entanto, o assunto da exploração
do gás que foi o detonador para uma verdadeira rebelião
popular nacional. Em Outubro de 2003, os bolivianos derrubaram a
Sanchez de Losada, presidente corrupto que foi o promotor das privatizações
e grande defensor dos interesses das multinacionais. A Sanchez,
que fugiu com ajuda dos Estados Unidos, sucedeu o, então,
vice-presidente Carlos Mesa com a promessa de organizar um referendo
e uma constituinte. Organizou um referendo, mas não permitiu
que se cumprisse a vontade popular de 95% dos votantes que defenderam
a recuperação do controlo do Estado sobre a indústria
dos hidrocarbonetos.
Em Março de 2005, quando o projecto de lei
promovido pelo MAS que teria permitido ao Estado arrecadar 50% dos
lucros das petrolíferas estava a ponto de ser aprovado, o
presidente Mesa e sectores do parlamento orquestraram uma série
de manobras para impedir a aprovação desta legislação,
levando os movimentos sociais a exigir a nacionalização
pura e simples dessa indústria. As multinacionais contra-atacaram
animando sectores coloniais e racistas da Santa Cruz que ameaçaram
com a secessão do país (como no Katanga, no ex-Congo
Belga). Esses mesmos sectores tentaram substituir o presidente Mesa,
que tinha renunciado, pelo presidente do Senado ou da câmara
dos deputados, bem conhecidos como defensores dos interesses das
multinacionais. Mas a pressão do movimento social obrigaram
estes dois personagens a declinar o cargo e deixar que assumisse
esse alto cargo o presidente do Supremo Tribunal de Justiça,
com a incumbência de organizar novas eleições.
Ao mesmo tempo, várias multinacionais, como
a espanhola Repsol, a brasileira Petrobras, a inglesa BP, a francesa
Total, a holandesa Amoco que exploram o gás boliviano, com
contratos altamente favoráveis, ameaçam processar
a Bolívia nos tribunais de arbitragem, apesar de ser público
que as suas margens de lucro são totalmente abusivas e que
a lei aprovada recentemente não faz mais do que corrigi-las
de uma maneira insuficiente. E apesar de não ignorarem que
o Tribunal Constitucional da Bolívia decretou nulos os contratos
com as multinacionais, por que privatizam recurso naturais inalienáveis,
segundo o artigo 139 da Constituição boliviana.
Enquanto esperam pelas medidas do novo governo,
os movimentos sociais fizeram um compasso de espera na sua luta
em prol da plena recuperação, pelo povo, dos recursos
naturais da Bolívia.
* Assessor do GUE, especialista em assuntos
da América Latina |