| ENTREVISTA
Yves Salesse: «É necessário
avançar para a coordenação de campanhas europeias»
NO FINAL DO MÊS PASSADO, 82 CONVIDADOS DE 19 PAÍSES
REUNIRAM-SE EM PARIS COM OS PRINCIPAIS MOVIMENTOS, PARTIDOS E CORRENTES
DO NÃO DE ESQUERDA EM FRANÇA. AGENDA: ORGANIZAR A
RESPOSTA EUROPEIA AO FRACASSO DO CONSELHO EUROPEU DE JUNHO QUE COLOCOU
O TRATADO CONSTITUCIONAL NO LIMBO DOS MORTOS-VIVOS E À ENTRADA
DE TONY BLAIR PARA A PRESIDÊNCIA DA UNIÃO. FOI NESSE
ENCONTRO DE DOIS DIAS QUE OS JORNALISTAS DO EPOHI,
SEMANÁRIO GREGO DE ESQUERDA, ENTREVISTARAM YVES SALESSE.
ESTE JURISTA, CO-PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO COPERNIC E
MEMBRO DO CONSELHO DE ESTADO DE FRANÇA, FOI UM DOS PRINCIPAIS
ACTIVISTAS SEM PARTIDO QUE APELARAM AO NÃO EM NOME DE UM
PROJECTO EUROPEU COM MUITO MAIS AMBIÇÃO DEMOCRÁTICA
E SOCIAL.
Entrevista de Angelique Sapoune e Nikos Servetes
Acredita que a esquerda europeia tem
capacidade para formular uma alternativa económica em escala
europeia?
Existe essa possibilidade. Será que ela o
fará? É necessário que encontremos formas de
trabalho adequadas. Por exemplo, os Fóruns Sociais Europeus
são muito importantes, um progresso enorme, mas não
chegam para esse objectivo. Não chega que todos os anos os
mesmos tribunos se reúnam para trocar pontos de vista e depois
partam.
A experiência da Fundação Copernic
mostra que isto implica um trabalho com seguimento e que há
muitas discordâncias que se ultrapassam quando fazemos esse
trabalho de equipa.
Quando participei no Fórum Social Europeu
de Paris, fiquei um pouco decepcionado. Estava numa reunião
com o tema: “Que propostas alternativas?” e a maior
parte dos oradores criticaram a Europa neoliberal mas intervieram
muito pouco sobre propostas alternativas. Mesmo em França
temos muitas dificuldades para fazer avançar este debate.
Nos encontros, as pessoas dizem algumas generalidades e é
claro que isso não chega. Escrevi um pequeno manifesto sobre
“Uma outra Europa”, na realidade um condensado de uma
obra bem mais importante que eu tinha escrito entre 92 e 97, e metade
das páginas são consagradas a propostas concretas,
precisas, sobre o que deveria ser essa outra Europa, em termos de
política económica, direitos sociais e institucionais.
A sua “outra Europa” é
um novo Estado supranacional?
Não penso que reflectir sobre a Europa em
termos de um novo Estado pelo menos num sentido comparável
à estrutura dos Estados nacionais que conhecemos ajude particularmente.
Claro que há a possibilidade da Europa ser um elemento maior
para a defesa e melhoria das conquistas sociais. É por isso
mesmo que sou pela construção europeia. Precisamos
da Europa, face à mundialização liberal, face
ao novo poder das firmas transnacionais e do mercado financeiro.
E precisamos da Europa para reconstituir a capacidade de acção
social e de solidariedade que é exigível hoje nos
domínios que o Estado nação já não
consegue assegurar.
É verdade que estou em minoria na esquerda
radical quando dou grande importância ao princípio
da subsidariedade. Ele existe nos textos europeus e diz, em resumo,
que a Europa se ocupa do que é necessário, mas não
de tudo. É muito importante não tratar de tudo ao
nível europeu. Há domínios em que a Europa
intervém de forma perfeitamente inútil e sabemos bem
porquê para alargar o mercado e favorecer a actividade das
grandes empresas.
Há, por exemplo, hoje um projecto de regulamento,
na pasta do Comissário francês Barreau, sobre a abertura
dos transportes públicos locais à concorrência.
A Europa não traz rigorosamente nada a este assunto, não
tem que se meter na organização dos transportes públicos
locais.
Por outro lado, e ficando num domínio que
conheço bem porque me ocupei da política europeia
do Ministério dos Transportes durante dois anos e meio, temos
necessidade de uma intervenção europeia sobre os grandes
transportes ferroviários. Hoje, pensar nos transportes ferroviários
em termos estritamente nacionais não faz mais sentido.
E quem pode controlar esse princípio
da subsidiariedade?
Diferentemente de hoje, não deve ser controlado
pelo Tribunal de Justiça Europeu, pela simples razão
de que a subsidiariedade não é um problema de Direito.
Ele deve ser controlado ao nível político pertinente,
seja ele, nuns casos, o nacional, seja, noutros, o europeu. É
um problema político. Compete às instâncias
políticas, designadamente aos parlamentos nacionais, dizer
o que deve ser tratado ao nível europeu e o que deve ser
tratado ao nível nacional.
O que lhe parece essencial nesse desenho de
“outra Europa”?
Sou um alto funcionário e não um poeta
infelizmente! O meu papel é o de fazer propostas concretas
e de aplicabilidade imediata.
A luta contra o desemprego é uma prioridade
ao nível europeu. Fiz propostas em matéria de política
económica e da redução do tempo de trabalho
que são praticáveis hoje.
Em segundo lugar, em matéria de serviço
público, é preciso não apenas que a Europa
pare de atacar, de martelar, nos serviços públicos
nacionais, mas também construir serviços públicos
europeus em certas áreas. Dei-lhe o exemplo dos caminhos-deferro.
Precisamos de um serviço público europeu nesse domínio.
Em terceiro lugar, os direitos sociais. Não
penso que seja preciso fazer um código de trabalho europeu
que se substitua aos códigos de trabalho nacionais. Há
muitas regras que devem manter-se na esfera nacional. Mas precisamos
de um certo número de regras sociais fundamentais, precisamente
porque se está a construir um mercado único. A protecção
contra a concorrência entre trabalhadores que a abertura do
mercado único implica carece de um certo número de
normas sociais essenciais. Há pouco intervim sobre a questão
do tempo de trabalho, a directiva do tempo de trabalho. Também
é preciso um salário mínimo em todos os países,
que pode ser indexado ao produto interno bruto de cada um deles.
Será possível avançar
para uma construção da Europa com o actual estatuto
institucional do Parlamento Europeu, que não tem verdadeiramente
uma capacidade de intervenção?
Esta Europa deve romper os alicerces da actual construção
europeia. A Europa de hoje assenta no primado do mercado, a ruptura
do modelo actual é condição para o desenvolvimento
da Europa.
Mas há outra razão para estar a “patinar”:
o seu funcionamento institucional não permite verdadeiramente
a construção Europeia.
Neste domínio diferencio-me das análises
muito propaladas do movimento alter-mundialista e falo com base
na minha experiência a partir do interior do aparelho de Estado
e do funcionamento das instituições europeias.
A Europa de hoje não é dirigida, ou
manietada, por uma Comissão Europeia que tem todos os poderes.
A Comissão tem vastas competências mas o poder fundamental
é o poder dos governos.
A base da Europa actual radica na negociação
intergovernamental e os governos não agem em prol do bem
comum europeu, mas sim em função de cálculos
políticos internos, de pequenas trocas, da pequena mercearia.
Acabámos de ver isso mesmo no Conselho Europeu «–
Eu reprovo o teu desconto./ Ah, mas se tu reprovas o meu desconto,
eu ataco a tua política agrícola porque tu recebes
muito dinheiro”... Não se pode construir a Europa desta
maneira!
E qual é a saída institucional?
Sou favorável a um processo constituinte,
realmente constituinte. Queremos ou não construir a Europa
política? Construir a Europa política isto é,
construir um poder político europeu. Um poder que não
se exerça em todos os domínios, mas naqueles que aconselham
uma intervenção europeia. Isto quer dizer um poder
político democraticamente controlado e não negociações
entre governos. Quer dizer um parlamento europeu e um governo europeu
designado a partir da maioria política europeia.
O sistema actual é perverso. Por um lado,
reforça a autonomia dos executivos em relação
ao controlo parlamentar internacional: quando um governo negoceia
em Bruxelas, ninguém sabe o que ele negoceia, ninguém!
Mas esta não é a única perversão. A
outra é que os debates de orientação política,
que são europeus, acabam artifi cialmente nacionalizados.
Nós dizemos “a França defende aquilo, mas a
Inglaterra é contra e os gregos dizem que...”. Quando
se trata de saber como se combate o desemprego, a mesma questão
divide a França, a Alemanha, a Grécia ou a Grã-bretanha,
porque o confl ito é entre política liberal e política
antiliberal. Os debates europeus não surgem como debates
europeus.
Quer fazer algum comentário sobre o modo
como esta reunião tem estado a decorrer?
O que acabei de dizer na intervenção
que fiz, é que é necessário avançar
para a coordenação de campanhas europeias. Nós
sofremos, durante a campanha que levámos a cabo em França,
a ausência de outras campanhas públicas contra o projecto
do tratado constitucional noutros países.
Este era o nosso principal ponto fraco. Diziam-nos:
«vocês são por outra Europa mas são os
únicos na Europa a dizê-lo. Onde estão os vossos
aliados?». E nós respondíamos que havia coisas
como o Fórum Social Europeu, mas nada disso era verdadeiramente
visível. Temos necessidade de manifestações,
de campanhas e reuniões em todos os países europeus.
É um plano de acção sóbrio,
portanto. E deverá ser sóbrio o plano de elaboração
de uma outra Europa. É necessário ir mais longe do
que estes encontros mais ou menos episódicos. Estar lado
a lado, trocar informações, é sem dúvida
necessário, indispensável. Tem de se começar
aqui e agora, mas será preciso ir mais longe.
A Fundação Copernic é uma
rede de intelectuais. Qual o papel dos intelectuais que não
estão integrados no sistema institucional europeu ?
A diferença não é entre intelectuais
que participam no sistema e os que o não fazem. Eu participo
no sistema todos os dias e na Fundação Copernic temos
altos-funcionários, inclusive ao nível europeu, que
participam no trabalho crítico e de elaboração
de propostas alternativas.
Em oposição, quando deparamos com
pessoas que não participam no sistema, intelectuais como
Habermas ou Tony Negri, sobre a constituição tiveram
uma posição catastrófica que mostra apenas
como se pode ser brilhante e não-integrado e, passar completamente
ao lado das realidades sociais.
A diferença é que existem intelectuais
e investigadores que se mantiveram muito críticos em relação
ao sistema capitalista e que procuram um enquadramento no qual possam
contribuir não apenas para esta critica, mas para a construção
de propostas políticas alternativas. O que fazemos na Copernic,
é usar essas competências não como pão
abençoado, mas para confrontar essa reflexão com a
experiência prática, com a experiência pratica
do terreno.
Fale-nos um pouco da Copernic, do grupo Copernic...
Copernic é uma associação de
reflexão, de análise da política néoliberal
e focalizada para propostas alternativas. Funciona com base em grupos
de trabalho de longo prazo. Um grupo Copernic trabalha pelo menos
durante um ano e reúne não apenas peritos, mas também
especialistas na avaliação do terreno, ou seja, militantes
associativos, políticos e sindicais.
Em segundo lugar, do ponto de vida do espectro
político, reúne todas as componentes da esquerda anti-liberal,
desde forças internas ao Partido Socialista e até
à extrema-esquerda, que se encontraram na campanha do Não
ao Tratado constitucional. Foi o que nos permitiu, de resto, não
sendo essa a nossa vocação, jogar um papel um pouco
decisivo nesta campanha NÃO. O clima do trabalho em comum
e a confi ança que conseguimos, ajudou à campanha
comum do Não de esquerda. |