|
O RESULTADO À MESA DOS PODEROSOS FOI O ESPERADO: NEM OS
POBRES DESAPARECERAM, NEM O EFEITO ESTUFA VAI SER COMBATIDO. NA
RUA MANIFESTARAM-SE CENTENAS DE MILHAR DE PESSOAS, ENTRE AS QUAIS
UMA DELEGAÇÃO DO BLOCO DE ESQUERDA E DO GUE DO PARLAMENTO
EUROPEU.
Texto de Nuno Ramos de Almeida. Fotos de André Beja
O
prolífico Bob Gedolf considerou os resultados da cimeira
do G8 na Escócia, como uma “vitória de milhões”.
O seu amigo Bono caracterizou George Bush como “um homem apaixonado
e sincero” na sua luta contra a pobreza. Geldof concluiu,
com uma lágrima ao canto do olho, que “pela primeira
vez a história do mundo, 280 milhões de africanos
acordam sem dever, a mim ou a si, um único cêntimo”
– Que generosidade!
A realidade parece ser muito menos idílica - os cantores
deveriam meditar na sua própria música, como na canção
dos U2 , «Until the End of the World», quando Bono canta:
«You miss too much these days if you stop to think»
-, na verdade os Estados Unidos apenas se comprometeram a dar na
próxima década 1, 75 mil milhões de dólares
aos países pobres do mundo, bastante menos que os 3 mil milhões
de dólares ANUAIS que os inquilinos da Casa Branca dão
de ajuda militar e financeira ao Estado de Israel.
Para ficar tudo em pratos limpos, basta dizer que o anunciado perdão
de 50 mil milhões de dólares nada são, comparados
com os 230 mil milhões de dólares que continua a “dever”
só a África sub-Saariana e os 2,4 biliões de
dólares que devem os chamados países “em desenvolvimento”.
Por cada um dólar de ajuda dado oficialmente a África,
os bancos, as instituições e governos ocidentais retiram
3 dólares. Sem falar dos lucros das multinacionais...
E se sobre a pobreza se tentou tapar o sol com a peneira, sobre
o ambiente e o problema do aquecimento global, não se passou
de declarações de boas intenções. Os
Estados Unidos continuam a recusar-se a cumprir o protocolo de Quioto
e os oito países mais poluidores do mundo apenas acordaram
“em investir em tecnologias limpas”. Em troca de uma
promessa tão concreta o presidente dos Estados Unidos, George
Walker Bush, citado pelo Financial Times, condescendeu em declarar
que já admitia (um considerável progresso intelectual)
que “o aquecimento global pode ser influenciado pela acção
humana”. Como de boas intenções está
o G8 cheio, basta dizer que embora os oito países mais poderosos
produzam 47% das emissões de dióxido de carbono (ver
caixa na página seguinte), a sua vontade de procurar energias
alternativas, aos combustíveis fósseis, é muito
relativa. Por exemplo, o Banco Mundial gasta 94%, dos seus fundos,
de apoios a projectos no campo energético, em energias fósseis
e apenas 6% a apoiar a busca de energias limpas.
A cimeira do G8 em Gleneagles foi precedida duma feroz batalha
ideológica. Na própria semana da cimeira, a revista
de domingo do Financial Times, dava o tom num artigo da sua especialista
em ambiente, Fiona Harvey, em que a mesma começava a peça,
com uma suculenta passagem do último romance de Michael Crichton’s
– autor do Jurassic Park - State of Fear (Estado de Pânico),
onde o mesmo descreve uma conspiração dos ambientalistas
e de cientistas corruptos para criar uma ilusão de massas
sobre o aquecimento global, promovendo assim o desenvolvimentos
de indústrias ecológicas caras e inúteis, segundo
o autor, e tentando destruir o modo de vida americano. Perante a
ameaça, só o governo dos Estados Unidos pode salvar
o mundo dessa catástrofe económica anunciada.
Muitos
dos que marcharam perante mais de 10 mil polícias não pediam
só para fazer passar a pobreza à história, exigiam também enviar
o capitalismo para a pré-história.
|
|
Com tanta “informação”, não é
de estranhar que a dupla (Bob e Bono) aspire ao lugar de bardos
dos poderosos e se multiplique em elogios. Chegando Geldof a mandar
proibir, como revelou o diário britânico Telegraph,
quaisquer críticas dos músicos a Bush, no Live 8.
Não é portanto de admirar que o mesmo, afi rme com
convicção que “nenhum presidente Americano fez
mais por África, que George Bush”.
Não está em causa a vocação caridosa
dos dois. Apesar do custo exorbitante da operação
Live 8 e do facto de, à imagem e semelhança da economia
globalizada, os concertos não quererem os africanos para
nada: praticamente não passou pelos palcos nenhum cantor
desse continente, é sabido que os dois cantores irlandeses
estão genuinamente preocupados com os pobres. O problema
é que eles pretendem, como escreveu o articulista George
Monbiot no Guardian, tornarse árbitros do que devem ser as
campanhas dos movimentos sociais e da população frente
aos poderosos do G8. O problema, é também, que eles
acham que a pobreza em África se resolve com uma estratégia
de caridade, que não altere a balança do poder na
economia globalizada, e pelo contrário: em troca do perdão
da dívida, obrigue estes países a privatizações
forçadas dos serviços públicos e dos diferentes
sectores económicos que, a breve prazo, apenas vão
levar a mais dívidas e mais fome.
A resposta a esta situação não passa pela
caridade, como escreve Monbiot: “a resposta à questão
do poder, é construir movimentos políticos que neguem
a legitimidade dos poderosos e tomem o controlo, das vidas, nas
suas mãos. Para fazer, o que por outras palavras, o povo
da Bolívia está a fazer neste momento”.
Nas semanas anteriores à cimeira do G8, assistiu-se na Escócia
à criação de um verdadeiro clima de medo, sobre
os homens e mulheres que iam manifestar-se contra esta globalização
neoliberal. O jornal local, Scotland on Sunday, chegou a inventar
uma directiva desesperada, dos hospitais, pedindo enormíssimas
quantidades de sangue, devido ao caos e confrontos que a cidade
de Edimburgo iria viver. O pronto desmentido das autoridades sanitárias
não alterou o tom das notícias. Saltando o terreno
mediático, o clima de intimidação político
atingiu o próprio parlamento escocês. Depois de há
meses atrás ter votado, por unanimidade, uma moção
que expressava o direito das pessoas se manifestarem junto à
localidade de Gleneagles, onde decorreria a cimeira, na véspera
da dita o primeiro ministro escocês recusou-se a comentar,
durante um debate parlamentar, a proibição decretada
pelas autoridades policiais. Os deputados do Partido Socialista
Escocês protestaram e exibiram cartazes pedindo a liberdade
de manifestação. A reacção não
se fez esperar: o parlamento suspendeu durante um mês os seis
deputados eleitos, tirou-lhes o ordenado, proibiu-os de entrarem
nas instalações parlamentares e privou também
do vencimento os funcionários que trabalham, nessa instituição,
para os socialistas escoceses. O líder do partido, Colin
Fox, comentou à imprensa que as sanções eram
tão lógicas e democráticas que “só
tinha faltado ter declarado guerra à Polónia”.
Todo
este aparato não conseguiu evitar que mais de 250 mil pessoas
se tivessem manifestado em Edimburgo contra a pobreza e os arranjos
do G8. Muitos dos que marcharam perante mais de 10 mil polícias
não pediam só para fazer passar a pobreza à
história, exigiam também enviar o capitalismo para
a pré-história. Entre os muitos milhares de manifestantes
estava uma delegação de 40 pessoas, organizada pelo
Bloco de Esquerda, que durante uma semana participou nas muitas
iniciativas contra a cimeira do G8. No fim da marcha, Francisco
Louçã, intervindo no comício, sublinhou que,
nesse dia, o próprio Financial Times avisou para o perigo
da emergência de uma opinião pública contra
a cimeira e o neoliberalismo. Muitos milhares de manifestantes estavam
ali para provar que esse perigo era real e que o mando dos poderosos
do G8 não é eterno. |