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POIS É | Miguel Portas
Os idiotas úteis
Editorial do jornal GLOBAL,
Março 2006
O editorial do Le Monde de
8 de Março coloca, com toda a brutalidade, a pergunta a que
a União Europeia e as suas potências nucleares não
querem responder. Porque se encontram elas na primeira linha da
pressão sobre o Irão, quando a posição
americana nada tem a ver com a possibilidade deste país desenvolver
um programa nuclear, pacífico ou armado? Porque se põe
a Europa em bicos de pés, quando os cordelinhos são
manejados nas suas costas por quem já decidiu que o objectivo
é “a mudança do regime”?
O desenvolvimento do contencioso com o Irão merece uma leitura
atenta. Com efeito, pela primeira vez em muitos anos, Washington
resguarda-se. O hard power fica-se pelos bastidores. Porquê?
A primeira abordagem é defensiva. Os EUA contam com as ondas
de choque da retaliação a um eventual ataque aéreo
sobre as instalações nucleares da teocracia de Teerão.
A resposta, mais que militar, colocará uma pedra na aliança
entre o ocupante e os chiitas no Iraque e incendiará o Líbano.
Se forem impossibilitados de construir “o chiismo num só
país”, os mollahs exportarão a revolução
islâmica. No mundo muçulmano e no Médio Oriente,
nada ficará como dantes. E as alianças, sob intensa
pressão popular, não serão como as das guerras
do golfo.
Segunda abordagem: os EUA sabendo disto, manobram para enfraquecer
suficientemente o regime antes do ataque. De modo a que este, quando
ocorrer, garanta a derrota da teocracia, porque esse é o
único modo de travar as retaliações.
No meio deste jogo de grandes proporções entre os
conservadores e reaccionários de ocidente e oriente, o Parlamento
Europeu e o Conselho fazem o papel de idiotas úteis. A União
tinha como baralhar os dados desta equação envenenada:
podia mobilizar as opiniões públicas de ocidente e
oriente com uma oferta de relançamento de uma estratégia
de desarmamento nuclear em troca do regresso do Irão a uma
lógica negocial que não hipotecasse o orgulho nacional
explorado pelos mollahs. Mas a Europa, e em particular as suas potências
nucleares, são prisioneiras de uma lógica de força
que lhes escapa e que desistiu de condicionar: a da guerra preventiva
e do conflito de civilizações. De tanto o invocarem,
um dia ele acorda mesmo…
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