A
HUMILHAÇÃO DE TODOS OS DIAS
“Constantemente controlados pela polícia”.
De todas as queixas mencionadas pelos jovens revoltados do povo
deste país, esta omnipresença do controlo e da detenção
na sua vida normal, esta perseguição sem tréguas,
é o mais constante, o mais partilhado. Percebemos verdadeiramente
o que significa este abuso? Qual é a dose de humilhação
e violência que isto representa?.
TEXTO DE ALAIN BADIOU*
Tenho um
filho adoptivo de 16 anos que é negro. Chamemo-lo Gerard.
Ele não está incluído nas “explicações”
sociológicas e miserabilistas habituais. A sua história
passa-se simplesmente em Paris.
Entre 31 de Março de 2005 (Gerard ainda não
tinha 15 anos) e hoje, não consigo contar as vezes que foi
controlado na rua. Inumeráveis, não há outra
palavra. As detenções: seis! Em dezoito meses... Eu
chamo “detenções” quando o levam algemado
à esquadra de polícia, quando o insultam, quando o
amarram a um banco, quando fica assim durante horas, algumas vezes
detido um ou dois dias. Para nada.
O pior de uma perseguição está
muitas vezes nos pormenores. Conto por isso, um pouco minuciosamente,
a sua última detenção. Gerard, acompanhado
do seu amigo Kemal (nascido em França, logo francês,
de família turca), encontra-se por volta das 16:30 em frente
de um liceu privado (frequentado por raparigas). Enquanto Gerard
dá piroupos a raparigas, Kemal negocia com um aluno de um
liceu vizinho a compra de uma bicicleta. Vinte euros, a bicicleta,
um bom negócio! Suspeito, é certo. Vejamos que Kemal
tem algum dinheiro, porque trabalha: é ajudante de cozinheiro
numa crêperie. Três “miúdos”
vêm ao seu encontro. Um deles tem um ar desamparado: «esta
bicicleta é minha, um matulão levou-ma, há
uma hora e meia, e não ma devolveu.” Olá! Parece
que o vendedor era um ladrão. Discussão. Gerard não
vê outro caminho se não entregar a bicicleta. Um bem
mal comprado não interessa a ninguém. Kemal resolve-se
e os «miúdos» partem com o engenho.
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| Em muitas cidades dos subúrbios de Paris,
a paisagem matinal de Novembro foi semelhante à desta
foto tirada em Aulnay sous Bois. |
É então que pára junto ao passeio,
com uma travagem brusca, uma viatura da polícia. Dois dos
ocupantes lançam-se sobre Gerard e Kemal, atiram-nos ao chão,
algemam-nos com as mãos atrás das costas, depois empurram-nos
contra uma parede. Insultam-nos e ameaçam-nos: “Paneleiros
de merda! Idiotas!”. Os nossos dois heróis perguntam-lhes
o que fizeram. “Vocês sabem muito bem! Virem-se imediatamente
(colocam-nos, sempre algemados, de frente para as pessoas que passam
na rua), para que todo o mundo possa ver quem vocês são
e o que fizeram!”. Reinvenção do pelourinho
medieval (uma meia hora de exposição), mas, novidade,
antes de qualquer julgamento, e mesmo de toda a acusação.
Vem a carrinha. “Vão ver o que é levar na tromba,
quando estiverem sós». “Gostam de cães?”.
“Na esquadra não haverá ninguém para
vos ajudar.”
Os “miúdos” protestam: «eles
não fizeram nada, até nos devolveram a bicicleta.”
Pouco importa, levam todo a gente: Gerard, Kemal, os três
miúdos e a bicicleta. A culpada será a maldita da
bicicleta? Podemos garantir que não, nunca seria esse o problema.
De resto, na esquadra, separam Gerard e Kemal dos três “miúdos”
e da bicicleta, os três “miúdos” brancos
são imediatamente libertos. Quanto ao negro e ao turco é
uma outra coisa. Foi, contaram-nos mais tarde, o “pior”
momento. Amarrados ao banco, recebiam pequenas pancadas nas tíbias
de cada vez que um polícia passava em frente deles, sucediam-se
os insultos, especialmente para o Gerard: “grande porco”,
“negro de merda”... Ficam assim uma hora e meia sem
que saibam de que são acusados e suspeitos de quê.
Finalmente, informam-lhes de que estão detidos devido a agressões
cometidas num grupo há 15 dias. Estão verdadeiramente
amargurados, não sabem do que se trata. Assinatura da ordem
de detenção e envio para a cela.
São 22 horas. Em casa, eu espero o meu filho.
Telefonam-me duas horas e meia depois: «O seu filho está
detido pela possibilidade de ter sido violento quando estava num
grupo”. Eu adoro a palavra “possibilidade”. De
passagem, um polícia menos cúmplice diz a Gerard:
“ Mas tu, parece-me que tu não estás envolvido
em nada, o que fazes ainda aqui?” Mistério, com efeito.
Quanto ao negro, o meu filho, digamos desde já
que ele não foi reconhecido por ninguém. Está
livre, diz um polícia, um pouco aborrecido. Pedimos-te desculpa.
De onde vinha toda esta história? De uma
denúncia, ainda e sempre. Um vigilante do liceu das raparigas
tinha-o identificado como sendo aquele que participou nas famosas
violências de há duas semanas. Não era realmente
ele? Um preto e um outro preto, você sabe...
A propósito de liceus, de vigilantes e de
denúncias: afirmo de passagem que durante a terceira detenção
de Gerard, tão vã e brutal como as cinco outras, pediram
ao liceu dele a foto e o dossier escolar de todos os alunos negros.
Leram bem: alunos negros. E como o dossier em questão estava
no gabinete do inspector, devo crer que o liceu, tornado sucursal
da polícia, operou esta interessante “selecção”.
Telefonam-nos bem depois das 22 horas para irmos
buscar o nosso filho, ele não fez nada, desculpam-se. Desculpas?
Quem se pode contentar com isso? E imagino que as pessoas dos «subúrbios»
não têm sequer o mesmo direito a essas desculpas. Quem
acredita que não deixa vestígios a marca de infâmia
que querem, desta forma, inscrever na vida quotidiana destes rapazes,
vestígios devastadores? E se eles quiserem demostrar que
no final de contas - dado que os controlam por nada - poderá
ser conhecido (um dia, “num grupo”) que os podem controlar
por qualquer coisa, quem acharia mal?
Temos os distúrbios que merecemos. Um Estado
para o qual o que se chama de ordem pública não é
mais do que a junção da protecção da
riqueza privada e dos cães lançados sobre as origens
operárias ou sobre os provenientes do estrangeiro é
pura e simplesmente desprezível
*Alain Badiou, filósofo, professor honorário
da Escola Normal Superior, dramaturgo e romancista.
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