|
O Colóquio
realizou-se pouco tempo depois dos acontecimentos de Paris (motins
nos subúrbios franceses), e a preocupação dos
participantes era a de sublinhar a necessidade de dar mais direitos
aos imigrantes, como forma de garantir uma melhor integração
e uma vida digna para todas e todos que trabalham na Europa.
No encerramento, Francisco Louçã e Miguel Portas
sublinharam a necessidade de apostar em políticas que promovam
a cidadania,apostem na educação e procurem a integração
dos imigrantes que vivem em Portugal.
Entre Janeiro e Setembro de 2004, segundo declarações
do Alto Comissário para a Imigração, Rui Marques,
presente no Colóquio Internacional, foram concedidos 164
vistos de imigração legal pelo nosso país.
Uma gota de água na quota de 8 mil e 500 autorizações
para imigração legal, definidas pelo anterior governo,
com base numa estimativa de trabalho destinada a novos imigrantes,
que rondaria 30 mil vagas. No mesmo debate, Maria Ioannis Baganha,
investigadora, admitiu que estivessem a sair do país 40 mil
a 80 mil portugueses por ano.
Enrique Santiago, secretário-geral da Comissão do
Estado Espanhol para o apoio aos Refugiados, analisou os acontecimentos
de Melilla, que indignaram a opinião pública. Segundo
a direita espanhola, a culpa seria de Zapatero, porque este decidira
proceder à regularização de 800 mil clandestinos.
Enrique Santiago demonstrou que não existe qualquer relação
de causa e efeito, até porque a imigração da
África subsaariana até à costa sul do Mediterrâneo
demora meses e, em muitos casos, um a dois anos. Não obedece,
portanto, a notícias de jornais e televisões.
O problema é o inverso.
A actual política de Bruxelas e dos Estados membros é
evitar que haja quem tente atravessar o mar e garantir que sejam
os países do Sul a policiar as nossas fronteiras. Marrocos
recebeu 40 milhões de euros para reequipar a sua polícia
com radares, sistemas de comunicações e material circulante.
A Argélia 10 milhões. E a Líbia entrou no clube
dos países “amigos ”. Chama-se a isto outsorcing.
O
jornalista italiano, do L’Expreso, Fabrizio Gatti, que se
fez passar por imigrante clandestino em Lampeduza, testemunhou,
no debate, a forma como os imigrantes eram expulsos e atirados à
sua sorte em pleno de serto de Líbia.
Um outro aspecto das políticas que consideram os imigrantes
gente descartável, passível de ser enviada para a
morte, é a situação em que vivem as populações
mais pobres dos países da Europa. Nas cidades subúrbios,
amontoam-se em condições degradantes muitos milhões
de pessoas, muitas delas imigrantes ou descendentes de imigrantes.
O professor universitário Yann Moulier Boutang analisou
as razões da fúria assolou a França. De facto,
as condições materiais de vida nos bairros sociais
de Paris estão presentes em todos os subúrbios das
grandes cidades do chamado primeiro mundo. Os estudos não
se enganam: o desemprego é alto em França; mas é
mais alto nos subúbios, onde atinge 25 por cento; e nestes
pode chegar aos 50 por cento entre os descendentes de magrebinos
e africanos.
Mas para Yann Boutang,os problemas não se resumem à
economia: “a República Francesa da Grande Nação
realizou, penosamente, a descolonização externa (a
que custo); não avançou muito na descolonização
interna do seu universalismo”.
Durante os dias 9 e 10 de Dezembro, dezenas de especialistas: investigadores,
dirigentes de ONG (Organizações Não Governamentais),
militantes e activistas reflectiram sobre Democracia, Integração
e Cidadania, na Torre do Tombo, num Colóquio Internacional
organizado pelo GUE/NGL (Grupo da Esquerda Unitária e Verdes
Nórdicos do Parlamento Europeu) e promovido pelo Bloco de
Esquerda.
|