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O Mário Pereira
saiu de Bissau em 2004. Com o 11º ano
de escolaridade e a vontade de ser jornalista. É alto, elegante,
e fala um português impecável. Decidiu partir após
a morte de sua mãe. Ela era a única razão
que o retinha na terra onde nascera. Tentou a imigração
legal para Portugal e para Espanha, mas recebeu em troca o silêncio.
Aqui, nesta nega, começa a história.
De um amigo
em Madrid, recebeu o incentivo que lhe faltava. “Vem”.
E ele foi. Ele e quatro amigos. Com trocos no bolso, uma mão
cheia de vontade, e a certeza de que ao longo da viagem usariam
os braços
para trabalhar. O périplo durou dois anos. Primeiro o Senegal, depois
o Mali e a Líbia. Trabalharam sempre o suficiente para
as custas da viagem seguinte. Cento e cinquenta euros aqui, 200
ali, 50 acolá. Não parece
muito, mas é imenso para africanos. Um deles ficou pelo
caminho. Morreu. Do meu bloco de notas apagou-se o nome e o lugar
da ocorrência. Mas foi antes de Mário Pereira ter
trabalhado como agricultor assalariado num pedaço de terra
fértil de uma família líbia nos arredores
de Tripoli. Este foi o derradeiro compasso de espera, antes da
travessia da Argélia. Em Maragaia, o grupo sentiu o cheiro
do destino. Na cidade fronteiriça existe aquilo a que Mário
chamou “um
governo” que, a 50 euros, garante a passagem para Oujda,
já em Marrocos. Daí a Melilla, é um pequeno
salto.
Conheci o Mário Pereira numa das tendas do centro
de acolhimento temporário de imigrantes, em Melilla. Chegou
lá a 20 de Setembro e a 10 de Outubro
ainda aí se encontrava, sem desesperar de Madrid. Ele tem
uma estranha fé: a de que o
seu pedido será aceite pelas autoridades; que em Madrid
conseguirá trabalhar para pagar a conclusão
dos estudos; e que, finalmente, será jornalista. Mas por
ora, é ele apenas notícia. Dei-lhe o nome que tem.
O nome que se merece numa história de homens e mulheres
sem nome e sem papéis. O destino
dos sem papéis
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| Mário Pereira conseguiu entrar em Melilla depois de
um ano de viagem desde a Guiné-Bissau |
No
campo, ele os amigos estão bem. Podem
ir à cidade
quando querem, desde que regressem até ao anoitecer. O centro é recente.
Tem arruamentos de cimento e pátios ao longo da rua principal,
com bancos e árvores. A Cruz vermelha assegura o serviço
médico, há um campo de basquetebol, e até uma
pequena escola para crianças, limpa
e asseada. Não é um hotel de cinco estrelas, mas é digno,
decente. Por que a antiguidade é um posto, os mais antigos
têm
dormitórios, e os mais recentes, tendas de campanha. O problema,
naqueles dias de Setembro e Outubro, era a sobrelotação.
Com capacidade para 400, abrigava entre 1300 e 1600 imigrantes.
Apesar disso, garanto-vos que o Mário se encontra no melhor
dos lugares da sua viagem inacabada.
Ele não
sabe, mas um dia sairá dali para um Centro de detenção
na Península Ibérica. Vai pensar que deu mais um
passo na direcção de Madrid, e que dessa chegou mesmo à Europa.
Mas no novo centro, ele já não poderá sair
durante as horas de sol. O seu processo será deferido
em 40 dias, o prazo legal. Como não é refugiado político
ou fugitivo de guerra, não conseguirá obter direito
de asilo. O Mário e os seus amigos são imigrantes económicos
de um país com o qual Espanha não tem
acordos de repatriamento. Por isso, também não será colocado
num avião de retorno a casa. Eles receberão apenas
ordem de expulsão do centro, quando o prazo
legal expirar. Na rua, passarão anos sem papéis, proibidos
de trabalhar, a não ser para empresários sem escrúpulos.
Eles não sabem que esse é o prémio que a “Europa
dos valores” lhe reserva: a clandestinidade. Mas por ora,
encontram-se bem. No corredor
da tragédia
Do grupo inicial de cinco guineenses, sobram agora apenas três.
Um finou-se no caminho. Outro desapareceu na tentativa de salto
da última fronteira,
a de Melilla. A fronteira é uma vedação dupla
de arame. A primeira, do lado de Marrocos, tem três
metros de altura. Mas a segunda, que completa o isolamento de Melilla,
tem seis metros. Entre as duas vedações, há um
corredor, uma vala contínua ao longo dos onze quilómetros,
que é vigiada pela Guardia Civil e que as autoridades espanholas
decidiram considerar como “Marrocos”.
Antes de vos explicar porquê, é preciso concluir a explicação – as
duas vedações paralelas têm, no cimo, arame farpado
militar, em forma de concertina. Por outras palavras, quem suba,
confronta
se com uma pequena floresta de picos de aço sobre a cabeça. A
primeira vedação, com mais ou menos ferimentos, ainda é ultrapassável
com a ajuda de escadas de madeira improvisadas, com degraus atados
a lenços e fi ta gomada. Mas a segunda, nem sonhar.

Escondidos na floresta, grupos de imigrantes fogem aos raids da polícia
marroquina, à espreita da oportunidade de saltar a vedação
e entrar em Melilla |
Na noite de 20 de
Setembro, o Mário e os seus quatro amigos participaram numa das vagas
de salto. Ninguém sabe o que sucedeu ao que não conseguiu
passar a segunda vedação. No salto
da noite, não se olha para o lado, só para a frente. Mas eu imagino-o
no corredor que separa as duas barreiras, a ser apanhado pela Guardia Civil
e a ser devolvido a Marrocos. Se não foi assim, podia ter sido. Foi
o que se passou com centenas de sem papéis ao longo
desses dias de Setembro e Outubro. Apanhados entre concertinas de arame farpado
e em seguida expulsos, para serem amontoados e depositados, sem comida ou água,
em pleno deserto. Ou, depois de se ter ficado a saber que este era o modo
de Marrocos, reconcentrados em Bouarfa, onde autocarros os levaram rumo ao
Sul, para lugares de nenhures. Um outsorcing criminoso
Os media acompanharam durante dias o que foi a saga dos que não
conseguiram passar. O desespero dos homens e os seus pedidos lancinantes
de água,
algemados aos pares, e acondicionados em autocarros como gado.
Os que eram do Mali e do Senegal não fizeram essa viagem
em direcção à muralha que Marrocos ergueu
no Sahara ocidental. Foram simplesmente repatriados de avião
para os países de
origem, porque com esses tem a dinastia alauíta acordos
de extradição.
O drama maior foi com todos os outros: os de Serra Leoa, que nem
pedido de asilo puderam fazer, apesar do caos ter tomado conta
do país; e os nigerianos, os camaroneses, os de Bissau e
Conacri, os da Libéria, e por adiante. Mais de mil.

Grupo de imigrantes que falhou o salto para Melilla e foi abandonado no
deserto pela polícia marroquina. A Frente Polisário reclama tê-los resgatado, ao
todo eram 92 pessoas |
As responsabilidades de Rabat na tragédia humanitária
são evidentes. Mas a indignação que assaltou
as autoridades espanholas e europeias, foi de um cinismo atroz.
O que se passou naquela fronteira foi um outsorcing. A Europa decidiu
colocar nas mãos de Estados que não
respeitam os Direitos Humanos, o trabalho sujo que não fica
bem às democracias fazer. E lava daí as suas mãos
e ainda se indigna...
No palácio do governador de Melilla,
os eurodeputados do GUE ouviram os responsáveis da cidade
deplorar o “drama
humano”. Mas, questionados sobre quantos imigrantes a Guardia
Civil expulsou do corredor entre vedações, foram
incapazes de dizer um número. “Muitas
dezenas”, alvitrou um. E logo o governador, de direita, acrescentou
que o estatuto do corredor era “opinável”.
Tinha que ser “opinável”, claro. Se fosse espanhol
- e esse tem sido o entendimento dos tribunais europeus – a
Guardia Civil não
podia ter procedido à expulsão de quem a ele tivesse
chegado. Mas sendo “opinável”, as autoridades
sentiram-se com as mãos livres. Num repente, o corredor
passou a ser uma no mans land, ou mesmo território marroquino.
Foi este o estratagema para as expulsões. Os eurodeputados
visitaram a vedação. Puderam, do lado de Melilla,
percorrer os onze quilómetros da fronteira terrestre. No
corredor, não há um soldado marroquino, apenas Guardia
Civil. É Espanha quem o patrulha. Pudemos igualmente observar
os stocks de concertina. Estavam todos do lado de cá. Vimos
trabalhadores a colocar esse arame farpado na primeira das vedações,
a do lado de Marrocos. E ainda a espalhá-la ao longo do
próprio
corredor, para que qualquer nova tentativa de salto caia directamente
em
cima de arame. Todo este trabalho estava a ser feito sob rigoroso
enquadramento operacional de Espanha. Por outras palavras, o governo
de Zapatero é quem responde pela dupla fronteira de arame.
Nada daquilo é de jurisdição “opinável”.
Aquilo é Espanha, faz parte do enclave colonial de Espanha
no Norte de África. O governo de Zapatero é co-responsável
pelas onze mortes verificadas na sequência das expulsões
de massa. E pelo depósito de 500 pessoas em pleno deserto.
E pelo comboio de gado humano em autocarros. Foi Espanha quem entregou às
bestas os sem papéis.
Infelizmente,
não é caso único. A partir do centro de detenção
de Lampedusa, uma minúscula ilha sob administração
italiana ao largo da Tunísia, Berlusconi faz o mesmo com
os chadianos e sudaneses que tentam a passagem por barco e que
são apanhados
no Mediterrâneo. Depois de os identificar, reenvia-os para
Kadaffi. Não é preciso um desenho para explicar
o que se segue. O coronel, agora, já é um defensor
do mundo livre... Esta reportagem amplia um artigo inicialmente publicado no DN
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