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KATRINA

O furacão neoliberal

SEGUNDO O PARTIDO REPUBLICANO E A ADMINISTRAÇÃO BUSH, HÁ MALES QUE VÊM POR BEM! DEPOIS DA CATÁSTROFE DE NOVA ORLEÃES PROVOCADA PELO FURACÃO KATRINA, A RECONSTRUÇÃO FOI ENTREGUE NAS MÃOS DE EMPRESAS COMO A HALIBURTON, LIGADA À GUERRA DO IRAQUE E AO VICE-PRESIDENTE DICK CHENEY, E O OBJECTIVO É CRIAR UMA CIDADE LIMPA DE “PRETOS, POBRES E CRIMINOSOS”. Texto de Nuno Ramos de Almeida

 

O furacão Katrina destruiu grande parte da cidade de Nova Orleães, mais de 150 mil casas foram arrasadas e centenas de milhar de pessoas tiveram de fugir. Para ter uma ideia da dimensão da tragédia, basta dizer que se calcula, segundo os serviços orçamentais do Congresso, que se perderam mais de 400 mil empregos. Grande parte da cidade ficou alagada, devido à derrocada de alguns dos diques que a protegiam. No lugar das casas, restou um gigantesco lençol de água, apelidado de “Lago do George”, em homenagem à inépcia e incúria do presidente dos Estados Unidos da América.

 


Algumas perguntas sem resposta

O historiador marxista Mike Davis autor, entre outros, dos livros Cidade de Quartzo, Classe Operária: os Prisioneiros do Sonho Americano e Cidades Mortas escreveu um conjunto de perguntas sobre a tragédia na revista The Nation, aqui ficam algumas:

  1. Porque é que os diques que protegiam os bairros pobres estavam muito mais degradados do que os que protegiam a indústria?
  2. Porque é que o presidente da Câmara, Ray Nagin, atrasou 24 horas a ordem de evacuação da cidade?
  3. Porque é que o director da FEMA, Michael Chertoof, atrasou até 31 de Agosto a declaração de “incidente de nacional signifi cado”, o que teria permitido mais ajuda federal?
  4. Porque é que os navios-hospital presentes na zona não foram imediatamente deslocados?
  5. Porque é que não foram utilizados os 350 autocarros da companhia de transportes da cidade para deslocar os pobres e sem carro?
  6. Porque é que não se utilizou o comboio para transportar parte da população?
  7. Porque é que os hospitais privados, como o de Tulane, foram evacuados de helicóptero e os doentes do hospital público foram abandonados?
  8. Foi intencional a falta de comida, medicamentos e abastecimentos no estádio para forçar os pobres a abandonar a cidade?
  9. O Bairro Francês tem a maior densidade de restaurantes dos Estados Unidos, porque é que não foram requisitados alimentos para o estádio?
  10. Porque é que apesar de se terem gasto milhões de dólares em exercícios de prevenção, o posto de comando da prevenção civil da Câmara teve que ser abandonado devido a uma avaria do único gerador?
  11. Estão as autoridades a investigar e processar judicialmente o chefe da polícia do bairro rico de Gretna que mandou disparar sobre os refugiados que fugiam do furacão?
  12. Vai ter a reconstrução da cidade a participação política de todos os cidadãos; poderão os pobres e refugiados votar nas eleições municipais do próximo 22 de Fevereiro?

Apesar de a 1 de Setembro o presidente Bush ter dito aos microfones da cadeia de televisão ABC que “ninguém podia prever a magnitude da tragédia”, não se pode dizer que o furacão tenha sido uma surpresa para a comunidade científica e a opinião pública. Desde o furacão Georges, em 1989, que vários estudos científicos, inclusive com o recurso a modelos computadorizados, previam que um furacão de grau 5 poderia matar entre 85 mil e 100 mil pessoas em Nova Orleães. Várias publicações especializadas consideraram, antes dos atentados do 11 de Setembro, que das três tragédias mais prováveis: atentado terrorista em Manhatan, tremor de terra na Califórnia e furacão na Luisiana, a última era a mais mortalmente provável. Apesar destes inúmeros avisos e dos repetidos pedidos de verba para reforçar os diques de protecção da cidade, a administração Bush nada fez. O corpo de engenharia do exército pediu este ano 27 milhões de dólares para reforçar as defesas da cidade; o governo de Bush contrapôs 3,9 milhões de dólares e o Congresso decidiu por 5,9 milhões (muitíssimo abaixo das verbas destinadas ao reforço do muro entre o México e os Estados Unidos para impedir a imigração clandestina). Mas mesmo estas verbas não foram aplicadas, tendo mesmo sido desviadas, segundo o Wall Stret Jornal, para a guerra do Iraque. O cúmulo foi que a maior parte dos investimentos federais para a região foram dirigidos ao apoio a empreendimentos milionários, como diz o historiador Mike Davis. “Não sejamos injustos: Washigton gastou somas consideráveis na Luisiana... Mas essas somas foram sobretudo em obras de infra-estruturas que beneficiaram os interesses das empresas portuárias e marítimas, bem como circunscrições eleitorais de maioria republicana”. Enredada na sua cegueira ideológica, e provavelmente convencida que as leis do mercado e a vontade dos tele-evangelistas impediria qualquer catástrofe, a administração Bush foi literalmente apanhada “de calças na mão”, tendo demorado tempo a reagir. Por exemplo, foi com extrema relutância que o presidente Bush se recusou a interromper as suas férias e a secretária de Estado Condolesa Rice não quis desmarcar uma ida às compras. Apesar da proximidade de inúmeras unidades militares, o primeiros socorros chegados à cidade vieram do Canadá!! Lentidão a que não foi estranha a demora do director da FEMA (Agência Federal de Gestão de Emergências), Michael Chertoff, em declarar a zona “calamidade de importância nacional”, assim permitindo a utilização de meios federais, nomeadamente navios hospitais militares que se encontravam na região.

Este comportamento desastroso não impediu que numa das primeiras intervenções televisivas o presidente Bush tivesse elogiado o “excelente trabalho” do director da FEMA, homem que tinha como anterior emprego - além de ser republicano claro! -, o ter sido advogado da associação de proprietários de cavalos puro sangue árabes...

Toda a reacção à catástrofe foi ditada pela vulgata neoliberal: os pobres foram deixados sem transportes para saírem da cidade, os refugiados no estádio Superdome sem comida e os doentes do Hospital público deixados à sua sorte (ao contrário dos do Hospital privado que foram evacuados de helicóptero). As declarações da antiga primeira dama Barbara Bush, mãe do actual presidente, a uma cadeia de rádio revelam bem este ponto de vista: “muitas das pessoas que estão aqui no estádio, como sabe, têm uma vida miserável, estão aqui muito melhor do que estavam antes do furacão”. Recorde-se que no estádio não havia comida, as casas de banho estavam totalmente entupidas, as fezes e a urina espalhavam-se junto às pessoas e foram registados assassínios e violações. Pelos vistos o habitual na vida dos pobres, segundo a patriarca da família Bush.

Mas se o auxílio foi lento e a resposta ao furacão profundamente incompetente, a rapidez de decisão na reconstrução tem sido espantosa. Depois de terem contribuído para a morte de uma cidade, a administração Bush vai construir no seu lugar um paraíso capitalista sem pobres e sem negros.

Rapidamente, o Congresso concedeu 64 mil milhões de dólares, que podem ascender a 100 mil milhões de dólares, para a necessária reconstrução. Esta verba será distribuída por um número limitado de firmas privadas, entre as quais pontifica a Kellog Brown & Root, uma subsidiária da companhia Haliburton – envolvida no negócio da “reconstrução do Iraque” –, de que foi presidente do Conselho de Administração o vice-presidente Dick Cheney.

Tal como a tragédia, o programa desta reconstrução tem um selo de classe. Para a elite republicana, o Katrina pode ser um maná dos deuses. Tal como confessou, ufano, um dirigente republicano do Luisiana, o congressista Richard Backer, ao Wall Stret Journal, de 9 de Setembro: “por fim os bairros de Nova Orleães foram limpos. Aquilo que nós não soubemos levar a cabo encarregou-se Deus de fazer”. Por sua vez, o presidente da Câmara, o empresário negro Ray Nagin, que conseguiu 87% do eleitorado branco, garantiu: “pela primeira vez, a nossa cidade está livre da droga e da violência, e estamos decididos a conservá-la neste estado”.

A cidade vai ter um processo de gentrização em que os moradores pobres vão ser expulsos e substituídos por gente que possa comprar novas e lucrativas habitações. Para os conservadores, é natural gastar milhões de dólares para prevenir e remediar as consequências das catástrofes naturais, mas é absurdo apoiar as vítimas das políticas neoliberais que provocam as catástrofes humanas como a pobreza e a fome.

De acordo com o congressista Mike Pence, um dos animadores do poderoso Republican Study Group, que contribuiu para elaborar o programa de reconstrução do presidente Bush, os republicanos vão fazer surgir dos escombros da catástrofe uma autêntica utopia capitalista: “vamos fazer do litoral do Golfo um pólo de atracção magnético da livre empresa. Está fora de questão reconstruirmos uma Nova Orleães dominada pelo sector público”.


Tigre de papelUM ELO liga o veto norte-americano às ajudas ao desenvolvimento e a tragédia de Nova Orleães. Nesta cidade, o Império revela-se um tigre de papel. Voraz nos negócios e na guerra, foi incompetente para acudir às vítimas de um furacão anunciado nas traseiras do seu quintal.

Na ONU, G.W. Bush recusa qualquer compromisso sobre Kyoto e quanto às ajudas públicas ao desenvolvimento, pela mesmíssima razão que não evitou a tragédia em Nova Orleães. O darwinismo é a convicção profunda que rege o cinismo da Casa Branca. E o seu instrumento é o mercado: quem puder safa-se, quem não, amanha-se. Esta a lei primeira e última que orienta as políticas internacionais e domésticas.

Em Nova Orleães, não havia planos de evacuação porque quem tem carro safa-se. E quem não tem, lixa-se. Em Nova Orleães, sucessivos avisos sobre a urgência de reforço dos diques foram ignorados. Faltou o dinheiro. Porque as políticas públicas não militares são a “gordura” dos Estados.

Em Nova Orleães, a resposta à catástrofe arranca com 48 horas de atraso. Em Washington isso não teria ocorrido. A Guarda Nacional da Louisiana, por exemplo, chegou com 3 dias de atraso. Faltou-lhe a autorização formal de um presidente em férias. E 3.800 homens que andam pelo Iraque...

Quando a Europa – e muito bem - enviou kits de alimentação e medicamentos para Nova Orleães, percebe-se o absurdo da lei do mais forte. Mas quando Durão Barroso, ao mesmo tempo, se recusa a abrir os cordões à bolsa para minimizar as consequências dos incêndios florestais em Portugal e no Sul de Espanha, esse absurdo adquire contornos surreais. Foi também isto que se ficou a saber no reatamento dos trabalhos do Parlamento Europeu em Estrasburgo.

A rentrée começa mal, portanto.

Quando a evidência recomenda que a prioridade mundial seja o combate à pobreza e ao subdesenvolvimento, a Presidência britânica e Durão Barroso decidiram fazer da “luta anti-terrorista” o seu alfa e ómega. Para isso haverá dinheiro. Dinheiro até para a União dar aos europeus, ingleses incluídos, o que estes sempre recusaram – um bilhete de identidade... agora com elementos de identificação infalsificáveis, capazes de correr por diferentes bancos de dados.

Um dia esta gente estampa-se. Estatela-se. Porque o mundo está virado de pernas para o ar. MIGUEL PORTAS