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ESTÓNIA
A luta pelos símbolos
Texto e fotos:
Miguel Portas e Renato Soeiro, em Tallinn, capital
da Estónia
Os acontecimentos tiveram escassa repercussão nos media
portugueses, mas rivalizaram com as eleições francesas
ou britânicas no centro e norte da Europa. Em defesa da sua
estátua, a comunidade russa da Estónia levantou-se.
A polícia deteve cerca de um milhar de manifestantes. Moscovo
cortou relações com Tallinn e Bruxelas defendeu os
seus. Miguel Portas, eurodeputado, e Renato Soeiro, funcionário
do GUE/NGL, relatam o que viram e ouviram.
Na tarde de 27 de Abril, mil a dois mil manifestantes, em regra
muito jovens, acusam a polícia de ser “fascistii”.
Não têm grande experiência neste tipo de andanças.
Vários vestem-se à moda dos jovens das banlieues
de Paris, com blusões de capuz, para dificultar a identificação.
Pertencem à comunidade russa de Tallinn. São empurrados
pelos serviços de segurança que, a pouco e pouco,
limpam a praça. Os miúdos desafiam abertamente
os polícias que, em raides selectivos, apanham os mais
combativos.
Um pouco mais tarde, irrompe por uma avenida adjacente, um grupo
de duas centenas de nacionalistas estónios, também
muito novos. De bandeira nacional, a polícia deixa-os
passar perto dos adversários. O confronto, contudo, não
se concretizou. Ele sobra, inteiro, para a polícia. Ao
terceiro dia de conflitos de rua, há dezenas de feridos
e as detenções elevam-se a quase um milhar. A destruição
de vitrinas e paragens de autocarro pelo centro da cidade, sinalizam,
do lado russo, a fúria dos mais jovens. É impossível
a um observador mais experimentado neste tipo de acontecimentos,
não constatar uma estranha inépcia securitária
na protecção da propriedade. Durante três
dias, as forças de repressão fecharam todas as
entradas no centro medieval de Tallinn e sua envolvente. Recorreram
a inúmeros check points e gradeamentos. Com o coração
da cidade bloqueado, sem trânsito automóvel ou de
peões, e com apelos governamentais a que os cidadãos
não saíssem de suas casas, grupos de miúdos
puderam, durante três noites, dar largas à sua ira.
Não se pode dizer que os agentes não levassem a
sério o papel que o governo lhes destinou: “estou
aqui a defender o meu país”, confessou-nos um deles.
Na fronteira, cidadãos da vizinha Letónia foram
barrados desde que circulassem com símbolos pró-russos
ou de memória soviética. E autocarros que se dirigissem
para Tallinn, a partir de outras cidades da Estónia, foram
igualmente impedidos de aí chegar. Do lado do governo,
o dispositivo de forças parecia agir como se estivesse
em marcha uma insurreição popular. Como foi, então,
possível, a destruição de tantas montras?
A resposta talvez se encontre no modo como os jornais e as televisões
abordaram os acontecimentos: com abundante profusão de
imagens destinadas a martelar o “vandalismo da canalha”.
Um dos principais jornais da Estónia, na sua edição
de 28 de Abril, publica 16 páginas de fotos chocantes
de incêndios e destruição de lojas, carros
virados, e manifestantes carregados com a mercearia retirada
das lojas. Todas as suas páginas, capa incluída,
têm como cabeçalho uma bandeira da Estónia
no chão a arder…
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| Na tarde seguinte aos primeiros confrontos nocturnos,
centenas de membros da comunidade russa da capital, com destaque
para jovens em idade liceal, concentraram-se numa das praças
da cidade, desafiando a polícia de choque que a queria
limpar de manifestantes e procedia a dezenas de detenções. |
Uma estátua no centro do motim
Quando, em Agosto de 1991, o Soviete Supremo da República
da Estónia ratificou uma Resolução que estabelecia
a sua independência face à URSS, mais de um terço
da população descendia dos imigrantes russos que
afluíram aos países bálticos após o
fim da IIª guerra mundial.
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| O pomo da discórdia: 1 metro e 83 de soldado soviético
em bronze. O governo de Tallinn decidiu proceder à sua
trasladação do centro da cidade para um cemitério
da periferia, bem como os cadáveres de vários
soldados mortos durante os combates pela libertação
do nazismo. |
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O que então aconteceu na Estónia não diferiu,
na substância, dos outros países do Leste europeu.
Na transição do capitalismo de Estado para o capitalismo
tout court, e da ditadura para a democracia parlamentar, os símbolos
foram os primeiros a cair. De todas as estátuas do período
soviético, só uma escapou à limpeza: a do “soldado
de bronze”, que assinalava a libertação do
nazismo. A estátua, situada numa colina nas proximidades
do centro medieval, “guardava” ainda uma vala onde
repousavam vários corpos de soldados soviéticos.
Foi a decisão de trasladar o conjunto para um cemitério
militar da periferia que esteve na origem dos conflitos. Dificilmente
um monumento poderia traduzir mais drasticamente as diferentes
percepções da História. A minoria russa considera
os soldados soviéticos como libertadores, e a união
da Estónia com a Rússia, como uma aliança
natural; o nacionalismo estónio, pelo contrário,
considera que o último meio século foi de ocupação
ilegal, e que os russos não passam de ocupantes e colonialistas.
Os mais radicais consideram mesmo os nazis como libertadores… A
estátua de homenagem ao soldado soviético, símbolo
material deste período, é vista, portanto, sob olhares
bem distintos.
Seja como for, o memorial nunca deixou de ser objecto de romagem
por ocasião das tradicionais manifestações
do 9 de Maio, o dia que assinala a vitória sobre o nazismo
na Europa. Mas nos últimos anos, o mero encontro evocativo
de veteranos da Segunda Grande Guerra, transformou-se num momento
de afirmação de massas, onde a presença de
símbolos russos e soviéticos tinha o condão
de irritar os governos e os nacionalistas estónios. O memorial
instituiu-se em símbolo de uma comunidade que se sente discriminada
no país. Não se pode dizer que lhe faltem razões.
Em 1992, recuperando uma antiga lei da nacionalidade, a cidadania
automática só foi dada a quem já a tinha antes
de 1940, e aos seus descendentes. Só os estónios
de “sangue puro” puderam votar no referendo constitucional.
Todos os outros - e entre estes a população de origem
russa - foram obrigados a realizar exames de língua e de
História estónias, internacionalmente considerados
como extraordinariamente exigentes, se quisessem aceder à nacionalidade
do país em que nasceram. O resultado desta política
está hoje à vista: 15% da população
da Estónia não tem direitos de cidadania e é discriminada
nos empregos e nos serviços sociais. Os motins de fins de
Abril reflectem o profundo descontentamento que grassa entre esta
minoria nacional. Mas não só. Disputas de natureza
geo-estratégica entre a Rússia e um nacionalismo
estónio alinhado com Bruxelas e Washington, jogaram também
o seu papel.
Escalada
Em 2006, os nacionalistas estónios decidiram confrontar
os manifestantes do 9 de Maio. Desde então, as tensões
subiram. A polícia passou a controlar a zona e o parlamento
estónio passou ao ataque. Em Janeiro deste ano, e com boa
dose de cinismo, aprovou, apenas com 6 votos contra, que as normas
internacionais de respeito pelas sepulturas dos mortos de guerra,
implicavam a transferência dos restos mortais dos soldados
russos para um cemitério… A escalada prossegue em
Fevereiro, quando o Parlamento aprova, por 46 votos contra 44,
uma lei que proíbe monumentos que exaltem a União
Soviética. O texto exigia o desmantelamento do monumento
no prazo de 30 dias, mas o presidente vetou-o invocando a sua inconstitucionalidade.
Com a polémica a subir de tom – ela marcou as legislativas
de Março - criaram-se condições legais para
a trasladação, a concretizar antes das celebrações
do 9 de Maio. Escusado será dizer que a minoria russa respondeu à ofensiva
nacionalista. Para além da permanente deposição
de flores e de velas, grupos de “guardas da noite” passaram
a fazer vigília nocturna do monumento. Estónios garantem
que tais permanências eram pagas pela embaixada da Rússia,
que garantia igualmente os transportes para as manifestações.
Como diria um italiano, si non é vero, é benne trovato…
Quando, a 25 de Abril, chega a Tallinn um enorme aparato policial
que cobre o monumento com uma tenda branca e veda a colina, todas
as condições para a tragédia estavam reunidas.
A comunidade russa revolta-se nessa mesma noite. Alguns milhares
de manifestantes são então violentamente dispersados
pela polícia. Um morto, dezenas de feridos e três
centenas de detidos selam a noite. O resto é conhecido.
Moscovo corta relações com Tallinn e Bruxelas, embora
em diferentes registos, alinha ao lado do seu Estado-membro. Num
repente, os motins de Tallinn ocupam o centro das relações
entre Moscovo e a União. Mas, verdadeiramente, o alvo de
Vladimir Putin é Washington. Ele vê nas atitudes “anti-russas” do
governo estónio um episódio mais do seu alinhamento
com G.W. Bush, que procura o apoio europeu para a instalação
de novas bases e equipamentos militares anti-míssil no Leste
europeu.

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