| POIS É |
Miguel Portas
Relações
de força Os mais recentes acontecimentos políticos na França,
Polónia e Estónia, sendo entre
si distintos, obedecem a uma mesma tendência forte: as direitas
puras e duras esticam a corda e as políticas, no espaço
da União, “nacionalizam-se”. Sarkozy venceu
apropriando-se de todos os temas fortes da extrema-direita francesa.
Desde logo, a imigração. Mas também a afirmação
de uma ideia de nação forte, capaz de se proteger
do mundo envolvente e de nele desempenhar um lugar central, à
medida das glórias perdidas. Formalmente, Sarkozy é um
herdeiro do general De Gaulle. Mas pouco tem a ver com ele. De
Gaulle via a soberania
francesa no contexto da afirmação de um projecto
europeu independente dos Estados Unidos.
Sarkozy, pelo contrário, é o mais atlantista
dos presidentes franceses e olha para a Europa do estrito ponto
de
vista dos interesses da burguesia francesa. Para De Gaulle, a ideia
de Estado forte envolvia poder nuclear, mas também uma dose
estratégica de capitalismo de Estado. Sarkozy, diversamente,é
uma mistura explosiva de neo-liberalismo com proteccionismo. Em
rigor, o seu discurso não é novidade.
Nos países bálticos, na Polónia ou na república
checa, este cocktail tem sido ensaiado sem sofisticações.
Na Europa, os governos destes países actuam como quintas
colunas
de Washington e como postos avançados do liberalismo económico
mais selvagem.Adivinham-se tempos difíceis.
Invocando o “perigo
iraniano”, a Casa Branca quer instalar um sistema
anti-míssil na Polónia e na república checa.
Os governos do báltico querem igualmente novos meios militares.
Putin, não sem bons argumentos, vê esta escalada como
uma ameaça ao seu país. Até ao momento, a
Europa hesitava ante a mais recente intromissão norte-americana.
A vitória de Sarkozy faz pender a balança para o
partido da força. Outra consequência da nova relação
de forças adivinha-se na discussão do Tratado. Com
Sarkozy, os eurocratas de recorte federalista arquivam os seus
sonhos. A 6 de Maio, ressuscitou
a Europa do Directório, ou seja, a ideia de Europa como
mera união de interesses e conveniências entre grandes
Estados dotados de uma imensa periferia
de pequenos mercados. O que, convenhamos, não é grande
espingarda para o nosso país... |