|
DIREITA PURA E DURA
VENCE EM FRANÇA
Era esperada e confirmou-se
a vitória daquele que
um dia classificou como “racaille” os
imigrantes do seu país. Sarkozy venceu
sem concessões ao centro,
apropriando-se dos temas
mais caros à extrema-direita
francesa. Ségolène perdeu,
apesar – ou por causa – das
suas inúmeras concessões
ao centro. A nova direita
faz renascer a Europa do
Directório de grandes países,
o securitarismo e o atlantismo.
Vêm aí tempos de luta e
clarificação. TEXTO DE RENATO SOEIRO

Trabalho - autoridade – mérito: eis a trilogia
de Sakozy no seu discurso de vitória na noite de 6 de
Maio. Esqueçam as ideias obsoletas de liberté, égalité e
fraternité, bem como os sonhos absurdos do Maio de 68. Franceses
preparem-se: a mudança vem
mesmo aí!
Não se pode negar a arte de um candidato
que, sendo um ministro marcante do governo de direita ao longo
dos últimos anos,
com um papel chave nos acontecimentos que criaram revoltas atrás
de revoltas, se conseguiu apresentar a si próprio como o
rosto da mudança... e apresentar a candidata da oposição
como a continuidade. A ideia de mudança era de facto a chave
para o sucesso numa França essencialmente insatisfeita
e ansiosa, como se vira no referendo ao Tratado Constitucional.
A insegurança, ou melhor,
a multiplicação dos sentimentos de insegurança,
são sempre um terreno fértil para
propostas fortes. E essa era a única das críticas
que o novo presidente não merecia.
Sarkozy optou por uma
campanha forte, afirmativa e claramente situada à direita,
o que se revelou decisivo para aglutinar mais de metade dos eleitores.
Do outro lado, Ségolène Royal tentou precisamente
o contrário: opções tímidas e um estilo
suave, que evitava a clarificação
política em nome da conquista do centro.
Sarkozy encerra em França um ciclo político. Não
apenas no que se refere ao modelo social e à tradição
de intervenção do Estado na economia,
mas também no posicionamento internacional da França.
A sua vitória agrada a Bush, que terá agora uma
França
mais atlantista e colaborante. Agrada a Downing street pelas mesmas
razões e mais uma, fundamental
para o governo inglês, que é o facto de Sarkozy querer
resolver o problema do tratado europeu sem recurso a referendo,
e com uma redacção minimal. Eis o que,
tanto para o Labour como para os Conservadores, soa a música
celestial. A sua Europa é a do
Directório dos grandes países e nisso coincidem com
Sarkozy. O referendo, pesadelo maior dos dois grandes partidos
do Reino Unido, pode ter começado a resolver-se ontem
em França. Nem mesmo Durão Barroso ficou descontente.
Ele quer ultrapassar o impasse constitucional seja como for. Também
na questão da Turquia,
onde os governantes europeus se sentiam obrigados a dizer o que
não pensam, Sarkozy trouxe algum alívio: frontalmente
contra a adesão, numa matéria
que exige unanimidade, pode ter resolvido o assunto sem que os
restantes governos tenham o incómodo darem o dito pelo não
dito.
Mais incrível ainda é a afirmação
do ex-ministro, já na qualidade de futuro presidente, de
que “esta noite, a França
está de volta à Europa”. Por onde terá andado
a França nos últimos anos em que ele esteve
no governo? E o que vai mudar agora? Algo. A palavra-chave de
Sakozy em matéria europeia é “protecção”.
Conjura os seus pares europeus “a ouvirem a voz dos povos
que querem ser protegidos”, “a não ficarem
surdos perante a cólera dos povos que vêm a UE não
como uma protecção,
mas como o cavalo de Tróia de todas as ameaças
contidas nas transformações do mundo”.
A nova França recuperará a sua grandeza na Europa
e no mundo reforçando
o seu proteccionismo. Pode ser absurdo, mas agradou aos eleitores.
Não
por muito tempo, mas agradou. A tarefa da esquerda, agora, é a
de resistir aos tempos difíceis que se avizinham. Em França,
evidentemente. Mas também nas instituições
europeias, em particular no Parlamento Europeu, onde a esquerda
unitária (GUE/NGL) terá de estar à altura
das responsabilidades que a emergência das novas direitas
coloca à Europa. |