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A GRANDE CRUZADA CONTRA AS LIBERDADES
O governo polaco exigiu a Bronislaw
Geremek a renúncia ao mandato de eurodeputado. A sua resistência
a entregar uma declaração de “pureza política” foi
aplaudida de pé pelo Plenário de Estrasburgo, e só o
grupo de extrema-direita no PE apoiou a posição dos
gémeos Kaczynski. Mas este episódio não é mais
do que a ponta do iceberg na extensa cruzada de caça às
bruxas que se está a desenvolver no país. TEXTO DE
JOÃO VIRIATO

Jaroslav Kaczynski, primeiro-ministro polaco e irmão gémeo
do presidente do país,
discursa na presença de Durão
Barroso
“Lustração”:
eis uma palavra que remonta às
antigas cerimónias de purificação romanas
e que agora foi adaptada, na Polónia, à perseguição
e exposição pública de antigos membros do
partido comunista e presumidos ou reais colaboradores dos serviços
secretos
do antigo regime. No passado mês de Março, o governo
polaco de extrema-direita lançou a chamada “Lei da
Lustração”, segundo a qual 700 mil profissionais
liberais, entre os quais jornalistas, professores e advogados nascidos
antes de 1972 são obrigados a assinar um documento
declarando que nunca colaboraram
com o regime, sob pena de despedimento ou interdição
profissional. Esta lei vem complementar uma outra, de 1998, que abrangia
os detentores de cargos públicos e membros da igreja.
Todos
estes profissionais terão que responder a um questionário
no qual se pergunta se alguma vez “secretamente e com conhecimento
colaborou com os antigos serviços de segurança comunistas”.
Devidamente preenchidos, os questionários são em
seguida enviados para o Instituto de Memória
Nacional que, na posse de mais de um milhão de ficheiros
pessoais, verificará as “declarações
de inocência” e emitirá, caso se confirme a
não colaboração, um certificado de “pureza
política”. Ao invés, as consequências podem
chegar ao despedimento automático.
Se alguém se recusar
a responder, pode ser impedido de exercer a sua profissão
durante 10 anos. Foi ao abrigo desta recusa que Bronislaw Geremek,
eurodeputado
polaco, recebeu recentemente uma carta do seu governo exigindo
a sua renúncia ao cargo para que fora eleito. Geremek,
que é um
historiador medievalista de renome, foi um dos intelectuais que
se envolveu no sindicato Solidarnosc, que nos idos de 80 abalou
o regime do general Jaruzelsky. Mais tarde, foi um dos principais
negociadores do processo de transição pacífica
da Polónia
para a democracia e ministro dos negócios estrangeiros.
A sua recusa em assinar a declaração de “pureza
política” não se prende apenas com o seu passado
ou a discordância de fundo com esta medida. Na verdade, ele
já a tinha assinado em 1998, na qualidade de deputado. Extraordinário é que
tenha sido o único a negar-se entre 51 eurodeputados polacos
e 411 deputados nacionais nascidos
antes de 1972...
Deve dizer-se que a lei está a ser fortemente
contestada e há outros sinais de desobediência, a
começar pela Gazeta Wyborcza, um jornal que desempenhou
um papel importante
na oposição ao regime do Partido Operário
Unificado Polaco (POUP) e que agora anunciou um boicote à lei
através da sua jornalista
Ewa Milewicz: “Confesso-me quando tenho necessidade e não
quando o poder, ainda que democrático,
mo impõe”, declarou esta ex-dissidente que já assumiu
estar preparada para renunciar ao exercício da sua profissão. IGREJA
E HOMOSSEXUAIS
Também a Igreja Católica, instituição
com enorme peso no país, foi abalada com a Lei de Lustração.
O ex-arcebispo de Varsóvia, Stanislaw Wielgus, foi obrigado
a abandonar o seu cargo em Janeiro último, depois de se
ter provado que durante 20 anos colaborara com a polícia
política do regime. Apesar disso, a Conferencia Episcopal
do país não se pronunciou contra a medida.
Os resistentes à lei
pediram ao Tribunal Constitucional que aprecie a mesma, uma vez
que se considera que esta atenta contra
os Direitos Fundamentais, já que está consagrado
em todas as Constituições europeias o direito
de um cidadão a não declarar contra si mesmo (aquilo
que é conhecido nos EUA como a 5a Emenda). Para além
disso, esta lei representa uma bizarra inversão do ónus
da prova, ou seja, todos são presumíveis colaboracionistas
até prova em contrário.
Se a paranóia anti-comunista
tem sido o tema mais mediatizado, há vários sinais
de que os objectivos da coligação
entre os partidos Lei e Justiça, Liga das Famílias
Polacas e Autodefesa, que domina a cena política polaca,
visam bem mais longe. O novo poder instalado em Varsóvia,
sob a liderança dos Lech e Jaroslav Kaczynski, respectivamente
presidente
e primeiro-ministro do país, quer quebrar a espinha a
todos os opositores e ajustar contas com a conturbada história
do Solidarnosc. Para além desta perseguição,
o governo polaco encetou outra, desta feita contra a homossexualidade
e aquilo que classifica de “desvios sexuais”. Está actualmente
em preparação uma lei punitiva contra quem se assuma
como homossexual e decorre uma campanha governamental contra o
uso do preservativo.
0 eurodeputado do GUE/NGL, Giusto Catania
considerou que as recentes declarações do Ministro
da Educação polaco contra a “propaganda homossexual”,
e a proibição da Marcha do Orgulho Gay em Varsóvia,
são inaceitáveis e legitimam manifestações
de intolerância
e violência homofóbica. O facto é que se têm
registado cada vez mais casos de ataques e agressões contra
clubes e membros da comunidade gay.
Membros da coligação
governamental vêm anunciando a intenção
de lançarem novas propostas ultra-conservadoras, tais como
a proibição constitucional da prática
de aborto e a reintrodução da pena de morte.
Em Bruxelas,
um folheto do eurodeputado Maciej Giertych, onde sustenta que “o
anti-semitismo
não é racismo” e que “os judeus criam
os seus próprios ghettos”, foi objecto de larga
indignação
por parte dos seus pares,
das mais variadas bancadas. Este manifesto de ódio, reflecte
o clima de anti-semitismo que tem vindo a ser artificialmente
criado num país onde praticamente já não
vivem judeus.
Varsóvia é, em termos de política
externa, o mais fiel aliado da casa Branca na União Europeia.
Para ambos, vale o ditado popular, “diz-me com quem andas,
dir-te-ei quem és”... |