POIS É | Miguel Portas
Um ano decisivo
Editorial do
jornal GLOBAL,
Fevereiro 2005
Raras vezes na história da União,
12 meses serão tão importantes como os que aí
vêem. Em causa estão dois documentos de estratégia
– a ratificação do Tratado Constitucional
e a revisão da Estratégia de Lisboa – e
quatro instrumentos de política interna – a revisão
do Pacto de Estabilidade, a negociação das Perspectivas
Financeiras para 2007/2013, e as Directivas sobre serviços
e horário de trabalho. O que está em jogo?
O poder, em primeiro lugar. O Tratado
fixa uma arquitectura institucional cujo centro é o Conselho
Europeu e, neste, um núcleo duro constituído pela
Alemanha, a França, o Reino Unido e a Itália.
Os atlantistas obtêm, nesta ordem, uma Europa fraca “para
fora” e dura “para dentro”: uma Europa à
la Blair, que o eixo franco-alemão e a generalidade
dos socialistas e verdes “compraram”, porque é
“a Europa possível”...
A competitividade, em segundo lugar. A Estratégia
de Lisboa é, desde o início, um imenso equívoco.
Assente em 4 pilares - liberalização, conhecimento,
coesão e sustentabilidade ambiental – queria fazer
da Europa a “economia mais competitiva do Mundo”,
até 2010. O seu fracasso decorre dos governos só
terem levado a sério o primeiro pilar, o que se compreende
porque os outros “custam” investimento público
e pressionam o défice para cima...
É facto que a Alemanha quer mexer no
Pacto de Estabilidade, até porque não o cumpre.
Mas a revisão não toca na filosofia que lhe preside.
Para os ortodoxos, a economia continua a ser uma variável
dependente da moeda, ou seja, da estabilidade dos preços.
E o mesmo sucede com a política orçamental europeia.
Apesar de na UE morarem 10 novos inquilinos e outros 4 se encontrarem
em fila de espera, 6 governos já escreveram que o orçamento
da UE para 2007/2013 não pode ir além de 1% da
riqueza criada. Como não se fazem omeletes sem ovos e
os “pedintes” são pouco exigentes, o saldo
será triste - umas centésimas adicionais expressarão
a “magnanimidade” dos que “pagam” a
Europa.
A este cenário, somem-se as directivas
que apresentamos neste número do Global.
Elas mostram como “competitividade” e “asiatização”
são sinónimos. Se passam, o “modelo social
europeu” será um conto que os nossos pais um dia
contarão aos nossos filhos. E passarão, se não
existir coragem para mais do que “moderar” este
destino.