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JARDIM DOS CAMINHOS QUE SE BIFURCAM (I)
O título deste ensaio – que prossegue
no próximo número - sobre a União Europeia,
50 anos depois do seu primeiro momento constitutivo, é de
Jorge Luís Borges. Nesse conto, situado em plena primeira
grande Guerra, o escritor argentino discorre sobre o papel dos
actos no desenho dos distintos futuros. A sua parábola aplica-se,
como poucas, à encruzilhada em que a Europa se encontra. TEXTO DE MIGUEL PORTAS 
I. A presidente europeia em exercício, Angela Merkel, divulgou
no passado dia 25 de Março,
uma Declaração de Berlim que, assinalando o cinquentenário
do Tratado de Roma, tinha por objectivo relançar o projecto
europeu. O primeiro facto a assinalar
é
que o texto, intensamente negociado pelos Estados membros, não
tem as suas assinaturas, mas apenas os respectivos consentimentos.
Esta é a Declaração da presidência alemã aceite pelos seus pares na União.
A segunda particularidade da Declaração é a
de variar em função
da tradução, ao sabor das prerrogativas de cada chancelaria.
Por exemplo, a maioria dos Estados membros considera que no “modelo
europeu” se “conjugam
sucesso económico e responsabilidade
social”. Mas outros, a braços com verdadeiros divórcios
entre a União e os seus cidadãos, preferiram substituir
a palavra “responsabilidade” pelo conceito de “solidariedade”...
O singular modo deste texto de página e meia evidencia dois
dos actuais impasses europeus, a saber: a dificuldade do entendimento
entre Estados, que não permite, em regra, mais do que acordos
mínimos, mesmo quando
todos convergem nas escolhas fundamentais; e a percepção
de que se abriu, no espaço da União, uma fractura
entre “os de cima” e os “de baixo” que
recomenda, acima
de tudo, prudência. Qualquer das constatações
bastaria para que a celebração do 50o aniversário
do Tratado de Roma tivesse sido pretexto para uma importante discussão
pública sobre o futuro da União. Mas isso seria pedir
demais
à
sua presidência.
II. Não estranha, em consequência,
que o curto e laborioso texto de Angela Merkel dedique metade das
suas linhas à glorificação do passado, um
terço à reafirmação do presente, e
que o futuro se fique
por dois breves parágrafos, que se concluem com uma promessa
de marcha forçada: ”até às eleições
para o Parlamento Europeu
de 2009, dotaremos a União Europeia de uma base comum e
renovada”.
Vista de Berlim ou de Bruxelas,
a aposta faz todo o sentido. Para quem dirige a União, esta é o
resultado de uma voluntarista sucessão de actos de vontade
praticados
por visionários de longo alcance. Para a eurocracia – e
dela é tributária a Alemanha – a União é consequência
de uma vontade de vanguarda, e o consenso popular o seu resultado.
Essa a maior das lições que tiram de 50 anos de História
unificada.
A tese que se sustenta nesta reflexão
é
precisamente a contrária: hoje, só é concebível
um projecto europeu sólido, se o consenso popular
for uma condição prévia do seu sucesso.
III. No Jardim
dos caminhos que se bifurcam pode imaginar-se aquele
em que vinga o voluntarismo da senhora Merkel. Mas é, entre
todos, o menos provável. Antecipemo-
lo em forma de road map, para se perceber porquê:
Até Junho de 2007, a presidência
alemã divulgará o calendário para um novo
Tratado. A dificuldade
maior desta fase 1 é a definição
do âmbito do novo texto: será “institucional” ou “constitucional”?
Metade dos governos prefere a primeira variante, em teoria menos
problemática; contudo,
quem já ratificou a actual proposta de tratado prefere a
segunda versão para não ter que dar o dito pelo não
dito ante as suas opiniões públicas. Estados poderosos
encontram-se dos dois lados da barricada. E a França em
nenhum, pelo menos até à eleição presidencial
de Maio.
Admitamos que o diferendo
pode ser diferido para a fase 2, que ocupará as presidências
portuguesa e eslovena da União. Entre Julho de 2007 e Junho
de 2008, estas presidências realizarão
pelo menos duas conferências inter-governamentais com o objectivo
para chegarem a um novo texto. Ambas prefeririam não ter
que o fazer, mas não têm como escapar.
A Conferência da presidência portuguesa deverá dirimir
o desacordo
“
táctico”. A variante “institucional” é
minimal - deixa cair a terceira parte da actual proposta de Tratado
para salvar a primeira e, talvez, a segunda. Já na opção “Constitucional”,
mantém-se todo o articulado e acrescentar-se-ão os
anexos que forem necessários para “amolecer” a
rejeição de franceses e holandeses. É na presidência
eslovena que se concentram
os verdadeiros problemas. Mesmo que vingue a perspectiva minimal,
não faltará quem coloque
em cima da mesa novos equilíbrios
de poderes, destinados a reforçarem a dimensão europeia
das políticas em detrimento das prerrogativas de cada Estado.
Por muito que todos reafirmem loas de fidelidade ao anterior Tratado,
ele deixa de ser intocável a partir do momento em que a
discussão é reaberta. Os eslovenos, periféricos
em relação à Alemanha, e ainda
com reduzida experiência nas lides e manhas da União,
estarão metidos numa verdadeira alhada. Não deixarão,
aliás, de negociar duramente as contrapartidas do sarilho
que lhes caiu em sorte...
Admitamos, contudo, que os líderes europeus chegam, até Junho
de 2008, a uma nova versão do Tratado. Segue-se a fase 3,
de ratificação, a decorrer entre Julho de 2008 e
Junho de 2009, mês das eleições para o Parlamento
Europeu. Nos 17 Estados que já haviam ratificado a anterior
versão,
os governos imporão expeditas
confirmações parlamentares. Ainda assim, não é certo
que todos
consigam afastar da equação a figura do referendo.
Paradoxalmente,
quanto mais diferente seja o novo texto da versão original,
pior. Já com a França e a Holanda se passa precisamente
o contrário.
Finalmente, sobram os que ficaram de fora, como Portugal, o Reino
Unido, a república checa ou a Polónia.
Em teoria, é possível fazer o pleno
do “Sim”. Mas as hipóteses são diminutas.
O sucesso do road map alemão depende de uma excepcional
conjugação de imponderáveis.
Por outro lado, o seu preço é incalculável.
Quem alinhar na marcha forçada das ratificações
parlamentares, corre o sério risco de ver duramente castigada
a sua ousadia nas eleições europeias e legislativas
que se seguem. Retirar
o povo da equação é a condição
da ratificação. Eis porque o improvável sucesso
desta só tem uma consequência certa - aprofundar
o divórcio entre os povos e a instituição
europeia, na exacta medida em que dispensa a sua opinião.
O calcanhar de Aquiles da Declaração de Berlim é simples:
o preço do sucesso constitucional é o fracasso da
democracia.
IV. Podem antever-se outros caminhos?
Podem. E, portanto, outros futuros. Vista “de baixo”,
a Europa está muito longe da visão idílica
com que os seus líderes a apresentam. As preocupações
da maioria estão bem para cá da urgência
constitucional. O emprego deixou de ser seguro; os novos são
precários; o acesso ao sonho universitário deixou
de representar
uma garantia de futuro; a diminuição de regalias
nos sistemas
de saúde e segurança social passaram a ser uma realidade
tão forte quanto a do excessivo endividamento
bancário. Eis por onde andam as preocupações.
Pelas incertezas
da vida.
Por outro lado, a revolução comunicacional
faz chegar à casa de cada família mil novas “ameaças”,
reais ou fictícias. Guerras, atentados
terroristas, roubos mediatizados
no quarteirão do vizinho, acidentes
de estrada ou cataclismos e catástrofes ambientais são
diariamente
igualizados nos serviços
de notícias.
Desde o 11 de Setembro, mesmo clássicos
conflitos urbanos se passaram a olhar à luz do “choque
de civilizações”.
Uma nova mundividência do quotidiano emerge na Europa, sob
a forma de uma percepção angustiada
do mundo e da vida.
Finalmente, o recuo das formas organizadas de representação
social,
em resultado de duas décadas
de liberalismo económico, e a crise da própria política,
hoje sob suspeita generalizada, completam o caldo de cultura onde
muitos redescobrem
o Estado-nação como lugar de refúgio. 50 anos
após o Tratado de Roma, parte não negligenciável
dos europeus querem menos ou nenhuma Europa. No Jardim, esta é outra
das bifurcações
possíveis.
O grande beneficiário político da marcha forçada
em direcção a um Tratado recauchutado, é o
soberanismo e, neste, as suas correntes de direita e extrema-direita.
Também esta é uma consequência certa da hipótese
alemã. Antigos
e moderníssimos,
os populismos de direita opõem à arrogância
eurocrata uma mistura explosiva de argumentos que colhe
em todas as inseguranças.
V. Encontro-me entre os que pensam
que a integração económica e política
de um espaço com mais de três dezenas de Estados e outras
tantas línguas, é uma obra de extraordinário
alcance. Não se deve renunciar à ideia de que os conflitos
se podem resolver à mesa e não em campo de batalha.
Eis porque não pode a esquerda “deitar fora o bébé com
a água do banho”. A hipótese estratégica
a que o Bloco é fiel desde a sua fundação mantém
plena actualidade:
uma mudança no papel da Europa é indissociável
da sua própria refundação democrática
e social.
Se a integração favorece
bem mais o Capital do que o Trabalho,
é
preciso que assim deixe de ser. Se temos uma Europa de Paz, mas não
uma Europa para a Paz, é por esta que nos devemos bater. Se
temos um mercado único, mas não uma Europa social, é pela última
que nos mobilizaremos. E se a União escolhe os seus imigrantes
e trata os restantes como descartáveis
ou como ilegais, é pela dignidade da vida humana que juntamos
forças. Resistência social, portanto. Mas também
proposta política. As questões do poder não
nos são indiferentes.
Não é por acaso que o liberalismo económico
quer a sua constitucionalização.
O socialismo só pode combater esta perspectiva. Mas não
lhe chega a negativa. Ele tem que se afirmar
como projecto europeu e para hoje. Deve ser o terceiro dos futuros
possíveis.
O melhor.
VI. A condição desse projecto é a ideia de que a
Europa não avança de costas
para os seus povos e cidadãos. A marcha forçada alemã deve
ser contrariada com a exigência de referendos.
Simultaneamente, deve apresentar-se a alternativa de um processo
constituinte indiscutivelmente
democrático.
O próximo Parlamento Europeu deve ter poderes para escrever
a primeira versão de um novo Tratado
Constitucional. Isso faria das eleições de 2009 o primeiro
grande
momento de debate popular em toda a Europa sobre o seu futuro. Cada
força, europeia ou nacional, diria ao que vem - favorável
a que tipo de Tratado e porquê; ou contrária,
e obrigando-se a explicar o que propõe em alternativa.
A primeira versão do novo texto seria, em seguida, objecto
de segunda
leitura pelos parlamentos nacionais. Um compromisso entre
Parlamento e Conselho selaria o documento a ser ratificado por cada
Estado, de preferência por referendo. Se a marcha forçada
alemã quer retirar o povo da equação,
esta alternativa, pelo contrário,
coloca-o, pela primeira vez, no centro da decisão europeia.
A partir daí, a luta continua. Como sempre. Mas sob uma base
bem mais avançada. |