| POIS É |
Miguel Portas
Fumos de guerra
Para Washington, Teerão só tem um programa
nuclear civil porque quer chegar à arma nuclear. Em Bruxelas,
parte-se da mesma presunção. Quanto ao Irão,
insiste que o seu programa é estritamente civil e reclama, à luz
do Direito Internacional, pleno tanto direito a ele. Pelo menos tanto
quanto os EUA ou a União Europeia, que agora quer relançar
o nuclear no velho Continente, em nome da independência energética.
Os cidadãos estão razoavelmente confusos, mas intuem
a aproximação de uma nova guerra. Não percebem
porque há-de um país com inesgotáveis reservas
de petróleo precisar de energia nuclear, mas lembram-se ainda
de como foram enganados sobre os motivos que estiveram na origem
da invasão
do Iraque.
As coisas podiam ser diferentes. Por absurdo que
possa parecer, o Irão importa petróleo. A economia
do país usa e abusa da sua principal fonte de riqueza. O litro
de gasolina é de 6 cêntimos de euro, ou seja, 13 escudos
antigos! Mudar o padrão de consumo energético é,
por isso, indispensável, qualquer que seja o regime. Como
sucede com todas as revelações tardias das economias
preguiçosas,
o que se encontra mais à mão, é o que serve
- é o caso do nuclear. Sobre a substância, o erro de
Teerão não é distinto do de Bruxelas.
Acresce que os iranianos têm o Direito por si. Contra isto,
batatas. O que se pode e deve fazer é negociar. A União
Europeia dispõe-se a fornecer o urânio enriquecido para
as centrais iraquianas; o regime islâmico quer que o enriquecimento
se faça no próprio país, mas aceita um consórcio
internacional
para o fazer, e respectiva fiscalização pela Agência
atómica. Nenhuma das variantes implica
guerra.
O que entorna o caldo é o atoleiro em que
os norte-americanos se meteram no Iraque. Por causa dele, cercam
Teerão,
bloqueiam saídas políticas na Palestina e no Líbano,
e inventam uma aliança regional anti-xiita. Este, o contexto
que permitiu transformar o programa nuclear iraniano numa questão
de dignidade nacional. É óbvio que Teerão
não suspenderá o processo de enriquecimento de urânio
enquanto durarem as sanções em sede de ONU - se o fizesse,
não teria nada para dar em negociações... Prefere
antes esperar. Nos próximos
meses, ficará a saber se G.W. Bush, além de perdedor
no Iraque, se vai revelar como louco no Irão.
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