| GOSTOU
DA GUERRA DO IRAQUE? VAI ADORAR A DO IRÃO
TEXTO DE PASCAL BONIFACE, DIRECTOR DO IRIS - INSTITUT
DE RELATIONS INTERNATIONALES ET STRATÉGIQUES
No
dia 20 de Março a guerra do Iraque faz
quatro anos. O Global aborda o
assunto com dois artigos: o
primeiro de Pascal Boniface
especialista em questões
estratégicas e o segundo o editorial de
Miguel Portas, eurodeputado
do Bloco, integrado
no grupo parlamentar
europeu GUE/NGL.
Dois textos que meditam
nos desastres da nova
guerra anunciada e
das mentiras que
justificaram a guerra
do Iraque e que hoje
pretendem justificar
o ataque ao Irão.
Gostou da guerra do Iraque? Então, vai adorar
a guerra do Irão! Claro que não terá a
mesma forma. Não vale a pena sonhar com uma invasão maciça
com emprego de tropas em terra e uma ocupação militar prolongada
que acabará numa guerra civil.
Isso não é possível. Mesmo a hiperpotência
norte-americana tem os seus limites. Não tem – já não
tem – os meios para abrir uma segunda frente deste tipo. Você vai
ter que se contentar com ataques
aéreos e bombardeamentos dirigidos às instalações
nucleares iranianas. Mas não se preocupe, se o desenrolar vai ser diferente,
o resultado vai ser tão ou mesmo mais catastrófico do que a
guerra do Iraque.
O que é que surpreende mais ou choca mais? Que as mesmas pessoas que
se tinham batido em favor da guerra do Iraque, possam sem nenhuma vergonha,
apesar do resultado desta guerra, apelar a que haja operações
militares contra o Irão?
Que utilizem os mesmos argumentos:
perigo nuclear, necessidade
de acabar com um regime tenebroso e insuportável? Que os
mesmos “especialistas” que
garantiam
que o Iraque estava cheio de armas de destruição maciça,
garantem-nos (repetidamente e há vários anos) que o Irão
está a
um ano de conseguir produzir uma arma nuclear, sem terem medo que a sua
credibilidade seja posta em causa? Que ousem alcandorar-se numa posição
moral, ao mesmo tempo que praticam o terrorismo
intelectual e diabolizam todos aqueles que pensam que a guerra não é necessariamente
o melhor dos meios para resolver os problemas políticos. Que desavergonhadamente
se dediquem a veicular amálgamas duvidosas em que comparam Ahmadinejad
a Hitler – relativizando os crimes deste último?
Quando se ouve comparar um dirigente a Hitler,
sabemos que os preparativos para uma guerra
estão em curso. Este tipo de comparações foi feita em
relação a Nasser antes da guerra do Suez, para Saddam antes da
guerra do Golfo de 1990-1991 (mas nunca durante a guerra Iraque-Irão),
e antes da de 2003 (mas não entre as duas guerras), e finalmente em
relação a Milosevic antes da guerra
do Kosovo. Nenhum destes personagens era um grande democrata.
Mas pode-se seriamente colocá-los no mesmo
saco que Hitler? Isto não é uma ofensa à memória
das milhões de vítimas do nazismo?
Alguns ousaram mesmo, antes dele ser assassinado por um extremista
israelita, fazer a mesma escandalosa comparação em relação
a Rabin.
Não se trata de negar o perigo que representaria
um Irão com
armas nucleares, nem de aceitar sem nada fazer as inaceitáveis
declarações de Ahmadinejad de ver Israel riscada do mapa
ou da escandalosa
conferência revisionista de Teerão.
O IRIS (Institut de Relations Internationales
et Stratégiques), como
vários think-thanks, decidiu
aliás romper os contactos com o organismo que promoveu esta conferência.
Não se trata, também, de recusar o recurso à força
em qualquer circunstância. Há casos em que ela se justifica como
um último recurso. Foi o caso, na minha opinião, contra o Iraque
em 1991. Não foi o caso em 2003 e não é o caso hoje em
dia perante o Irão.
Qual será o resultado dos ataques às
instalações nucleares iranianas? Destruirão
certamente uma parte delas. Retardarão assim o acesso do
Irão à arma
nuclear. Mas aumentarão a determinação dos iranianos
a possuir a arma nuclear. Serão acompanhadas de inúmeros “danos
colaterais” (verdadeiramente
massacres) sobre a população iraniana que podem ser marcantes.
Depois do Afeganistão,
Iraque, Líbano, e sobre o pano de fundo do agravamento do
conflito israelo-palestino.
Dar-se-á um grande salto para a frente, mas em direcção
a um choque de civilizações e não em direcção
a um Médio-Oriente em paz, ao fim do terrorismo e à não
proliferação das armas nucleares. Todos estes objectivos (que
eram já afirmados na guerra do Iraque) serão colocados em causa
pela guerra contra o Irão. No momento
que Ahmadinejad começa a ter dificuldades no plano interno, verá a
sua legitimidade reforçada segundo a lei de antanho que
garante que perante um ataque do exterior a população de um país
tende a alinhar-se com os seus dirigentes.
Claro que se pode pensar racionalmente
que perante a situação estratégica desastrosa,
nomeadamente no Iraque, os Estados Unidos
não assumirão o risco de abrir uma segunda frente.
Infelizmente, o pior não pode ser excluído. George W. Bush pode
acabar por ser convencido pela sua própria propaganda. Se Ahmadinejad é Hitler,
como é possível aceitar que os riscos inerentes
a uma guerra são menores do que ter um Hitler dotado de
armas nucleares?
Impedir o Irão de se dotar de armas
nucleares, fazer que este país regresse a uma politica internacional
mais respeitosa dos seus vizinhos,
e que possa ser reintegrado na comunidade internacional são
objectivos correctos. A guerra é o meio pior de o conseguir. É mesmo
o melhor meio de atingir o resultado inveso.
Depois
das eleições de Novembro de 2006 e sobretudo após
a publicação
do plano Baker Hamilton
acalentou-se a esperança que o presidente Bush fosse adoptar uma política
mais realista e menos perigosa para a região. O triunfo
da ideologia sobre a realidade. A tentativa de sair da crise provocando
uma ainda maior? É o que podemos temer das catástrofes
que se parecem seguir.
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