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EPA/OLIVER WEIKEN

Durante
três meses,
a França foi atravessada por um extraordinário movimento
social. Na sua origem, a proposta de precarização
generalizada do emprego para jovens. Como pano de fundo, a sequela
do “Não” francês
ao Tratado Constitucional, e à ordem social que procurava
instituir. O GUE/NGL acompanhou de perto esta crise, que abordamos
em dois artigos, tendo aprovado uma mensagem de solidariedade ao
movimento na sua reunião de 22 de Março. TEXTO
DE CHRISTOPHE AGUITON*
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CONTRA A
PRECARIEDADE
DO TRABALHO EM
PORTUGAL |
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O Bloco de Esquerda apresentou
na AR um projecto que proíbe “o recurso a formas
de contratação de carácter precário,
para satisfação de necessidades permanentes dos
serviços da Administração Pública” e
prevê a passagem aos quadros dos trabalhadores com vínculo
precário. O Bloco apresentou ainda outro projecto que
introduz inovações no funcionamento das comissões
de trabalhadores. A deputada do BE Mariana Aiveca declarou,
em conferência de imprensa na Assembleia da República,
que o Bloco recusa que “o garrote orçamental” possa
servir de desculpa ao Governo para impedir a regularização
da situação dos trabalhadores precários,
argumentando que “é uma questão de elementar
justiça”, em declarações transcritas
pela a agência Lusa.
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Mais uma
vez a França foi atravessada
por um movimento social de grande amplitude,
que precipitou uma crise política. Esse movimento contou
com momentos dramáticos, como a situação em
que se encontra
Cyril Ferez, militante do SUD-PTT (nr: sindicato de esquerda),
hoje em coma, entre a vida e a morte.As origens conjunturais deste
movimento são conhecidas: um projecto de lei que instaura
para os jovens menores de 26 anos um contrato de trabalho precário
de dois anos, durante
os quais o empregador pode despedir o seu empregado sem apresentar
a menor justificação. Mas a reacção foi
muito mais viva, dado que existe em França um verdadeiro contencioso
entre a juventude e o mundo do trabalho,
de um lado, e o governo, do outro. Um contencioso social que remonta à greve
de 2003, que não conseguiu fazer recuar o governo sobre a
pensão
dos reformados, mas que marcou fortemente
centenas de milhar de grevistas. Contencioso político, também,
depois da eleição de Chirac, em 2002, contra Le Pen,
o candidato da extrema direita, sem que isso tivesse significado
a menor concordância com a sua política. Um contencioso
duas vezes repetido, em 2004, quando todas as regiões passaram
para a esquerda e, em 2005, quando a maioria dos franceses rejeitou
o projecto de Constituição da União Europeia,
sem que Chirac e o seu governo tirassem lições disso
e procurassem ouvir o que o país lhes dizia.
INDICADORES DE
FORÇA O
movimento contra o CPE, o “Contrato de Primeiro Emprego”,contém
todas as características das mobilizações francesas.
Depois de ter sido o país das revoluções, durante
um século, a França tornou-se, a partir do século
XX, o país das greves gerais. Face a um Estado forte e
perante a fraqueza dos organismos intermédios, as manifestações
concentram-se sobre o governo e o Estado para exigir mudanças
de orientação, ameaçando os governantes de aumentar
a pressão sem fi xar os limites a este confronto
geral. Nesta mobilização, como em 1968, em 1995 e em
2003, a ideia que se impõe é a de “todos juntos”,
visando alargar o movimento para criar uma relação de
força favorável.
Inicialmente mobilizaram-se as universidades, muitas vezes ocupadas
pelos estudantes. Depois, com a jornada de sábado, 18 de Março,
a mobilização
alargou-se com a entrada dos alunos dos liceus e a participação
dos trabalhadores nas manifestações. A greve nacional
de 28 de Março, convocada por todos os sindicatos, e depois
a de 4 de Abril, foram vitórias enormes, mobilizando
os trabalhadores dos sectores público e privado e igualmente
outros componentes do tecido social francês – a
confederação camponesa ou os movimentos de desempregados –,
assim como numerosos reformados.
Neste aumento da potência de mobilização
para obrigar o governo a ceder, são necessários instrumentos
que avaliem as relações de força e a situação
do movimento. Todas as mobilizações que cristalizaram
grandes crises, usaram indicadores que permitiam essa avaliação.
Durante o movimento de desempregados do Inverno de 1997/1998, foi
o número de centros que pagam os subsídios de desemprego
(ASSEDIC) ocupados que “mediu” o movimento. Durante a
rebelião dos subúrbios, em Outubro de 2005, foi
o número de viaturas incendiadas cada noite que avaliou as
diferentes fases do movimento: o seu crescimento, apogeu e decréscimo.
Hoje, como em 1995 e em 2003, o indicador do movimento é o
número
de manifestantes que a imprensa e o conjunto dos protagonistas anunciam:
500.000 em Fevereiro, um milhão em 7 de Março,
um milhão e meio em 18 de Março, três milhões
em 28 de Março e de novo três milhões
a 4 de Abril... Mas se o número de manifestantes não é contestado,
o indicador do movimento contra o CPE cada vez mais perigoso para
o governo porque se conjugava com sondagens que mostravam que a enorme
maioria dos franceses
era favorável à retirada do CPE.
O NEO-LIBERALISMO NO
CENTRO DA CONTESTAÇÃO Se este movimento tem características muito francesas, é também
revelador de questões que dizem respeito a toda a Europa e
ao resto do mundo.
Há mais de uma década que a França
passa por uma série de mobilizações: greve geral
do sector público em 1995, movimento dos sem papéis
em 1996, movimentos dos desempregados em 1997/1998, greves contra
a reforma do sistema de pensões em 2003, mobilização
dos contratados a prazo do espectáculo em 2003 e 2004,
movimento dos cientistas em 2005 e agora a mobilização
contra o CPE! Essas manifestações têm
em comum a rejeição de políticas
neo-liberais, e coincidem com as indicações
das sondagens e os resultados eleitorais. Durante as eleições
presidenciais de 1995, Jacques Chirac foi eleito contra Balladur,
um outro candidato
de direita que defendia uma orientação mais
liberal. Durante as legislativas de 1997, Jacques Chirac
e o seu primeiro-misnistro à época,
Alain Juppé, perderam as eleições pelas
mesmas razões: entraram no modelo das políticas
económicas
neoliberais, quando tinham prometido fazer o contrário!
Durante as presidenciais de 2002, Jacques Chirac e Lionel
Jospin, primeiro ministro socialista, que também não
quis romper com as políticas neo-liberais, obtiveram,
em conjunto, apenas 36 por cento dos votos expressos, tendo
a maioria do eleitorado votado em candidatos que se opõem
ao sistema, à direita e à esquerda.
Finalmente, em 2005, os eleitores rejeitaram o projecto de
Constituição
Europeia, apesar de apoiado pelos Verdes, o Partido Socialista
e os partidos de direita.
Esta rejeição das políticas neoliberais apareceu
talvez um pouco mais cedo em França do que noutros países.
Mas hoje há mobilizações na Europa e no resto
do mundo contra estas políticas.
REALINHAMENTOS À DIREITA
Quando estas linhas estão a ser escritas ainda não
se conhece o resultado fi nal do movimento, mas é provável
que seja infringida a primeira derrota importante
ao governo depois da greve geral do sector público de 1995.
As consequências políticas deste movimento
não são, também elas,
absolutamente claras, mas pode-se descrever alguns
pontos principais. No seio
da direita, este movimento abriu uma crise sem precedentes.
O confl ito
entre Dominique de Villepin, apoiado por Jacques
Chirac - que representa o gaullismo tradicional -
que acredita na virtude de um poder executivo forte
tentando passar por cima de um confl ito direita/esquerda
e Nicolas Sarkozy, ministro do Interior e presidente
da UMP, o grande partido da direita, saldou-se pela
vitória deste último. Mas isto pode
ser uma vitória
de Pirro. Nicolas Sarkozy não foi um grande
defensor do CPE por razões tácticas – considerava
que se deveria realizar primeiro uma fase de negociações
com os parceiros sociais – mas também
porque é mais à direita
que Dominique de Villepin. Para ele, devia-se alterar
a totalidade dos contratos de trabalho, visando uma
maior flexibilidade para o conjunto dos trabalhadores.
Nicolas Sarkozy representa uma direita mais moderna,
centrada na repressão
e absolutamente neoliberal, mas ao mesmo tempo convencida
da necessidade de negociar com todos os grupos sociais
e todas as comunidades. Mas sobre o plano económico
e social, esta orientação chocará com
a maioria dos franceses, cada vez mais convencidos,
depois deste movimento, que é preciso lutar
contra qualquer agravamento da precariedade e da
flexibilidade.
... E À ESQUERDA
É
a esquerda que aparece como a grande vencedora deste confl ito,
e as sondagens que são publicadas neste momento mostram
que a maioria dos franceses elegeriam uma ou um candidato do
Partido Socialista
se as eleições
presidenciais, previstas para Abril de 2007,
ocorressem hoje.
Esta subida da esquerda explica-se pela rejeição
do actual governo, mas também pela atitude firme e unitária
do conjunto dos partidos de esquerda contra o CPE, desde o Partido
Socialista até à LCR,
a principal força da extrema esquerda,
passando pelo Partido Comunista e os Verdes.
Mas, aí também, as coisas não serão fáceis
para um Partido Socialista que nunca rompeu com o neo-liberalismo e
que se deverá entender
com um movimento social reforçado por uma vitória histórica...
A chave, à esquerda, é a de saber se poderá nascer
uma alternativa credível ao neoliberalismo. Ela só poderá aparecer
se as forças à esquerda
do Partido Socialista se decidirem a investir numa campanha unitária,
como fizeram para a campanha do NÃO ao projecto da Constituição
Europeia. Mas esta alternativa à esquerda
poderá também usufruir da entrada na vida pública
de uma nova geração da juventude: muitos dos que apoiaram
este movimento já estiveram
em greve contra a presença, na segunda volta das presidenciais
de 2002, de Jean Marie Le Pen, o candidato da extrema direita. Participaram
em diferentes Fóruns Sociais e estiveram, igualmente, em greve
em Fevereiro e Março de 2003 contra a intervenção
no Iraque, e depois em 2005, contra a reforma do 12º ano. A
intervenção
na cena política e social desta nova geração
política poderá baralhar as cartas!
* Fundador dos sindicatos SUD e da AC! (Parar o Desemprego), ex-dirigente
da Attac/França e activista do movimento dos Fórum
Sociais, membro do Comité Internacional do Fórum Social
Mundial. |