| ANÁLISE
E no entanto... ela move-se
Onde se procede à análise
das mais recentes notícias da Europa, entre Roma, Paris e
Bruxelas. Antecipando tendências para os próximos meses.
Por Miguel Portas,
Abril 2006
Recebi
outro dia um email mal encarado. Enfastiava-se com o facto da esquerda
se entusiasmar com o fim do Contrato Primeiro Emprego em França
e com a derrota de Berlusconi. Curiosamente, o internauta não
era um daqueles jovens de direita radical que gastam o seu tempo
destilando sobre a esquerda. É radical, mas situado no extremo
oposto do espectro político. Ele acha que festejar a retirada
de uma “lei menor”, quando Villepin e Sarkozy continuam
a governar, é estúpido. E que é mal empregue
uma garrafa de champanhe que celebre a derrota de Berlusconi, quando
o vencedor é Prodi. O nosso amigo é um revolucionário
que arquiva as pequenas alegrias com que a História nos brinda,
enquanto não chega o “grande dia”. Terá
razão?
A queda de Berlusconi vale bem uma missa
Pois, em Roma não nasceu o primeiro governo dos sovietes
do século XXI. Nem sequer um governo reformista forte, clarificador.
O equivalente histórico que mais se aproxima da futura maioria
de centro-esquerda e esquerda, foi o governo italiano de 1948, no
imediato pós-guerra. Essa experiência, como se sabe,
durou pouco. Como é razoável admitir que esta não
dure, na sua composição actual, o tempo de uma legislatura.
Mas da resistência antifascista e da sua consequência,
o governo de 48, resultou, em Itália, um mapa político
no qual se afirmou a esquerda mais influente e promissora da Europa
ocidental. No passado dia 9 de Abril, com outros protagonistas e
plataformas, as duas Itálias formadas no século passado
voltaram a encontrar-se. E não é o espectro de um
ulterior fracasso que anula a leitura dos resultados: uma substancial
alteração na relação de forças.
A queda de Berlusconi vale bem uma missa. Berlusconi não
é “um dirigente da direita como os outros”, seja
lá o que isso seja. Ele antecipa e ensaia um dos futuros
possíveis para a política europeia e mundial - aquele
onde a finança, o Estado e o espaço virtual se fundem
numa só pessoa e para seu próprio benefício.
O império de Berlusconi precisa do Estado para a sua perenidade.
Como precisa de um partido de tipo unipessoal. Até Berlusconi,
o Estado moderno cuidava dos interesses gerais do capital financeiro
e, em função da pressão social e da relação
de forças estabelecida nas urnas, era mais ou menos permeável
aos interesses populares. Com Berlusconi, os interesses do capital
financeiro passaram a confundir-se com os interesses particulares
do primeiro-ministro, e o Estado passou a ser impermeável
aos movimentos sociais. Dito de outro modo: entre a democracia e
o homem forte da Itália dos últimos anos, existia
um insanável conflito de interesses. Daquela, Berlusconi
pretendia apenas os seus votos e porque deles não se podia
libertar. Quando exigiu a recontagem de todos os votos – apesar
de ter sido o seu ministro do Interior quem dirigiu as operações
eleitorais -, ou quando reclamou uma “grande coligação”
à alemã, o que o determinou foi a sua sobrevivência
no poder, mesmo que para tivesse que subverter todas as regras do
seu próprio jogo. Esta criatura nada deve à tradição
europeia das direitas liberais. É de outra estirpe. Berlusconi
é um produto moderníssimo da crise da política,
uma mescla explosiva de ultra-liberalismo, populismo e uso do Estado
em benefício pessoal.
O que melhor se lhe assemelha são as antigas burocracias
de Leste reconvertidas ao capitalismo, que usam as posições
oficiais que ocupam para acelerar os seus próprios processos
de acumulação primitiva de capital.
Nas democracias da globalização capitalista, a privatização
de sectores do Estado destina-se a abrir “novas zonas de lucro
arrancadas aos serviços públicos e aos sistemas de
segurança social”, como recentemente escreveu o insuspeito
Michel Rocard. Em Itália, não é “apenas”
este programa que está em causa. Em Itália, Berlusconi
reinventa o Estado anterior ao Contrato Social do pós-guerra,
amputado da separação de poderes, manipulado no espaço
virtual e criminalizador das praças e das ruas. Evitar que
ganhe asas, é da mais elementar sanidade mental. Celebrando
a sua derrota como uma vitória democrática.
O dia seguinte é outra questão. A esquerda alternativa
– que se reforçou nas urnas – ensaia em Itália
um passo que noutros países, nomeadamente em França
e no Brasil, esteve longe dos resultados esperados. A participação
num governo de hegemonia de centro-esquerda, salvaguardando a autonomia
dos movimentos sociais, é um exercício potencialmente
esquizofrénico. Mas nem as experiências referidas são
idênticas, nem a História é um processo de onde
a aprendizagem se ausente obrigatoriamente. Para já, os movimentos
sociais disporão de melhores condições para
arrancar ao futuro governo os compromissos que estabeleceu com o
eleitorado. Mais tarde se verá se foi o governo contaminado
pelo conflito social, ou se foi este a sufocar na relação
com o novo poder. Mas que os ares de Itália estão
bem mais frescos e desanuviados, só um cego não vê.
Do valor do Não francês
Um governo permeável às reivindicações
não é condição sine qua non da obtenção
de vitórias. O movimento francês prova que estas podem
ser arrancadas a um governo hostil – quando a alternativa
de que este dispõe é ceder ou cair. Mas só
excepcionalmente esta situação se proporciona. Por
outro lado, as tradições de luta adquiridas ao longo
de centenas de anos têm singularidades nacionais. A França
é o país da revolução que inventou a
democracia moderna; é ainda o país da Comuna e o da
primeira frente popular; e é Maio de 68. Na França,
a tradição é a dos embates frontais, mais do
que a do Contrato Social negociado. Claro que tem o seu Contrato.
Mas até nisso foi original: chegou a ele através da
Frente Popular. Agora bate-se contra a sua subversão do modo
que conhece – usando, para lá do voto, a rua, as ocupações
e os bloqueios. Na verdade, a França é o único
país da Europa onde todos os governos têm medo e respeito
pela rua.
Isto não faz dos gauleses gente avessa às reformas,
como gostam de teorizar os comentadores liberais. A França
é simplesmente um país vacinado contra o receituário
neo-liberal em voga.
Mas há mais: de 20 em 20 anos, os filhos dos pais das revoltas
anteriores aprendem a democracia onde ela se revela como descoberta
inesquecível. A França popular renasce, ciclicamente,
na rua, e é aí que se formam as novas gerações.
Claro que existem diferenças entre as crises de 1968, 1986
e 2006. Nostálgicos da revolução e cínicos
arrependidos, dirão que boa só foi a primeira das
datas; que a segunda e a terceira foram sindicais, materialistas
e, no limite, egoístas e individualistas. É não
perceber nada da vida nos momentos de convulsão. O “sê
realista, exige o impossível” de 68, não deixou
de ser uma aventura pelos lugares da individualidade na acção
colectiva. Do mesmo modo, a aparente modéstia dos sonhos
de 1986 e 2006 - a retirada de “leis menores” - não
impediram o país de se reconhecer na acção
dos seus jovens. Com uma novidade significativa neste último
caso: o movimento organizado dos trabalhadores cedeu a primazia
aos estudantes, e entre uns e outros estabeleceu-se uma aliança
inter-geracional de proporções inéditas. Desvalorizar
a vitória alcançada – quando os movimentos sociais
carregam doses cavalares de derrotas e desmoralização
– mais do que uma infantilidade, é sintoma de senilidade.
A Europa desorientada
Desde o choque do chumbo francês e holandês ao Tratado
Constitucional, que as direitas europeias se dividem sobre o caminho
a seguir. De momento, a tendência dominante é para
não esticar a corda. A fractura exposta nos referendos refreou
os entusiasmos dos círculos dirigentes europeus. Mais tarde,
o empate nas eleições alemãs e a constituição
de um governo de bloco central neste país, consolidou esta
tendência de “liberalismo temperado”, de resto,
hegemónica em Bruxelas. O primeiro sinal de desaceleração,
foi o compromisso no projecto de Directiva para a liberalização
dos serviços. Face à versão inicial, as alterações
do PE e que a Comissão aceitou, são substantivas.
Elas traduzem a cadeia de apertos em que Bruxelas se encontrava
- pressionada por uma liderança sindical moderada que exigia
resultados visíveis, sob pena de ficar refém dos sectores
radicalizados que animaram o protesto laboral.
A divisão na direita francesa, ante a força do movimento
anti-CPE, expressa outra dimensão desta novidade - a emergência
do medo nas classes dirigentes. Há, de facto, uma tendência
nova e pesada que atravessa a Europa. Revelada no movimento anti-guerra,
consolidou-se nos últimos três anos no conflito social.
Essa tendência começa a resolver a sua principal urgência
– a obtenção de resultados palpáveis.
Mas está ainda longe de ter tradução consistente
na esfera política.
De momento, esta emergência dos “de baixo” induz
o realinhamento centrista das políticas europeias e dos principais
governos. Mas a força das “grandes coligações”
é a sua fraqueza. Temperar o liberalismo é uma “missão
impossível” que reduz a política aos mínimos
que todos os governos possam subscrever. Dominante em Bruxelas,
esta tendência pode ainda durar, apesar de traduzir, como
nenhuma outra, o impasse europeu. Por isso, não se pode subestimar
o potencial das direitas radicais e eurocépticas, que têm
em G.W. Bush o seu referente externo. Reforçadas na Europa
do Norte e no Leste, influenciam governos e fazem da política
anti-imigrantes e do “choque de civilizações”
a sua plataforma de identidade. Com o advento de um novo capítulo
na guerra preventiva podem recuperar da derrota de Itália.
Na Europa, estão em gestação realinhamentos
de natureza tectónica. E há vulcões ainda em
actividade...
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