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Texto de Ricardo Góis
Por vezes, a realidade que
os números traduzem ajuda-nos a sustentar, e, sobretudo,
a criticar de uma forma mais fundamentada, determinadas posições
e ideologias políticas. Em vez de nos deixarmos enredar infinitamente
num nível abstracto, normativo e etéreo de discussão
política, essa mesma realidade que os números traduzem
pode, por vezes, ser bastante útil para o combate político
e para a desmistificação de algumas ideias feitas.
Vem isto a propósito do consenso transnacional neoliberal,
ao nível das políticas económicas e sociais
a que se convencionou chamar de "Consenso de Washington",
e que se tem vindo progressivamente a tornar em senso comum e a
institucionalizar-se a uma escala nacional e supranacional. O que
se pretende, então, neste artigo é chamar a atenção
para as consequências sociais da implementação
deste mesmo consenso nos países que mais fortemente o adoptaram
- a Inglaterra e os Estados Unidos - e para as consequências
sociais que a sua progressiva importação para a Europa
necessariamente acarretam, ao mesmo tempo em que se tentará
demonstrar que existe uma alternativa em relação a
esse mesmo consenso.
Só uma visão muito estreita da economia - que parece
ser a que hoje claramente predomina - é que faz com que,
muito frequentemente, a Inglaterra e os Estados Unidos sejam bastante
elogiados e referidos como casos de sucesso económico estrondoso,
principalmente nos últimos anos, e como simbolizando os exemplos
universais a seguir em termos de modelo económico e social.
Normalmente são apontados os indicadores de crescimento económico
e de criação de emprego destes mesmos países
como provas irrefutáveis desse mesmo sucesso, sem
nunca (ou muito raramente) se mencionar o que é que se esconde
por detrás desses mesmos indicadores.
Para termos o quadro completo do que
realmente se tem vindo a passar nos referidos países nos
últimos anos, proponho, então, que vejamos a evolução
de um índice estatístico que dá conta do nível
de desigualdades sociais, em termos da distribuição
do rendimento disponível num determinado país : o
índice de Gini (neste índice,
o valor 1 significa uma desigualdade absoluta, em que uma só
pessoa obtêm todo o rendimento disponível, enquanto
que o valor 0 significa igualdade absoluta, em que todas as pessoas
obtêm exactamente o mesmo rendimento). Tendo em conta este
mesmo índice, há países, como, por exemplo,
a Suécia e a Finlândia, que possuem um Estado-Providência
bastante desenvolvido, em que esse nível de desigualdades
sociais se tem mantido bastante baixo e estável ao longo
das últimas três décadas. Na Suécia,
em 1975, o valor desse mesmo índice era de 0.215, enquanto
que, em 2000, esse valor era ainda de 0.252 (1).
Na Finlândia, enquanto que, em 1970, o valor do índice
de Gini era de 0.270, em 1998, esse valor era de 0.295(2).
É sempre interessante comparar estes últimos valores
com os dos países que, de um modo geral, são tidos
pela esmagadora maioria dos economistas como apresentando o
modelo económico e social ideal
e como o único modelo eficiente
e viável num contexto de globalização - nunca
ou raramente mencionando estes mesmos economistas que o modelo económico
e social escandinavo é tão ou, em alguns aspectos,
mais competitivo economicamente do que o modelo anglo-americano
(cf. Blyth e Hopkin, pág. 12, nota 1 no fim), ao
mesmo tempo que apresenta os níveis mais baixos
de pobreza e de desigualdades sociais do mundo. Mas vejamos, então,
os valores do índice de Gini da Inglaterra e dos Estados
Unidos. Na Inglaterra, enquanto que, em 1979, o valor de índice
de Gini era bastante baixo (0.270), em 2000, esse valor já
era de 0.345(3).
Além disso, apesar da admiração muito generalizada
da performance económica dos últimos anos conseguida
pelo governo de Tony Blair - em termos de crescimento económico
e de criação de emprego (sobretudo precário)
- Andrew Shepard afirma que, entre 2000-2002, o valor do índice
de Gini aumentou mais do que em qualquer outro período coberto
pelo seu estudo, cujo intervalo temporal se situa entre 1979-2002
(4).
Ou seja, as desigualdades de rendimento subiram mais rapidamente
durante a governação de Blair do que durante toda
a governação de Margaret Thatcher! Outra forma de
observar a evolução das crescentes desigualdades,
no que se refere à distribuição do rendimento,
nos anos que correspondem à governação de Blair
(que chegou ao poder em 1997), é-nos dada pelo seguinte gráfico,
que dá conta da evolução da distribuição
da riqueza entre as 1000 pessoas mais ricas do Reino Unido e as
50% da população menos ricas(5):

Nos Estados Unidos, enquanto que, em 1979, o valor do índice
de Gini era de 0.301, em 1998, esse valor já tinha disparado
para 0.446, que é precisamente o mesmo valor, para o mesmo
ano, de Singapura(6).
Como os dados referidos anteriormente claramente demonstram, apesar
de se ter vindo, nos últimos anos, a assistir a níveis
consideráveis de crescimento económico tanto nos Estados
Unidos como no Reino Unido, os rendimentos que advêm
desse mesmo crescimento têm vindo a ser cada vez mais desigualmente
distribuídos. Ou seja, esse mesmo crescimento tem-se vindo
a fazer cada vez mais à custa de uma crescente polarização
sócio-económica.
Vejamos, então, mais alguns indicadores sociais que nos
permitem reforçar esta ideia. Se compararmos as
taxas de pobreza dos países nórdicos
com as da Inglaterra e dos Estados Unidos, podemos observar o seguinte:
em 1980, as taxas de pobreza na Finlândia e na Suécia
eram de 6,7% e 4,7%, respectivamente, enquanto que, na Inglaterra
e nos Estados Unidos, essas mesmas taxas eram de 6,7 e de 15,2%(7).
No entanto, em 2000, segundo dados recolhidos pela Organização
Internacional do Trabalho das Nações Unidas, enquanto
que as taxas de pobreza da Finlândia, Noruega, Dinamarca e
Suécia variavam entre cerca de 6 a aproximadamente 7 %, na
Inglaterra, essa mesma taxa já era de cerca de 22.5% e, nos
Estados Unidos, já era, aproximadamente, de 27.5%(8).
Joseph Stiglitz, ex-vice-presidente do Banco Mundial e prémio
Nobel de Economia em 2001, parece, então, ter toda a razão
quando diz o seguinte:
As políticas do Consenso de Washington prestaram pouca
atenção às questões da distribuição
ou da "justiça". Se os pressionassem, muitos
dos seus proponentes argumentariam que a melhor maneira de ajudar
os pobres é fazer crescer a economia. Eles acreditam na
economia "de conta-gotas". A seu tempo, os benefícios
desse crescimento chegarão aos pobres, afirmam eles. A
economia "de conta-gotas" nunca foi muito mais do que
uma convicção, uma questão de fé.
Na Inglaterra do séc. XIX, a pobreza parecia aumentar,
enquanto o país no seu conjunto prosperava. O crescimento
dos Estados Unidos nos anos 80 proporcionam o exemplo recente
mais dramático: enquanto a economia crescia, o rendimento
real dos mais desfavorecidos diminuía...Se é verdade
que o combate sistemático à pobreza não pode
prescindir de um forte crescimento económico, o inverso
não é verdadeiro. O crescimento não beneficia
necessariamente toda a gente(9).
Vejamos, ainda, outros dados que complementam os já anteriormente
apresentados. A exclusão social é algo que, à
partida, é bastante difícil de medir estatisticamente.
No entanto, as taxas de encarceramento normalmente
são um bom indicador global da escala e da extensão
dos fenómenos de exclusão social num determinado país.
No ano 2000, a taxa de encarceramento da Finlândia, da Suécia,
da Dinamarca e da Noruega, era, respectivamente, de 62, 68, 59 e
59 presos por cada 100 000 habitantes(10).
No Reino Unido, em 2005, a taxa de encarceramento era de 142 presos
por cada 100 000 habitantes(11).
Nos Estados Unidos, de acordo com o relatório de 2005 do
Centro Internacional para o Estudo das Prisões da King's
College, em Londres, no ano passado, existiam cerca de 2,09 milhões
de indivíduos que se encontravam presos. Este último
valor representa uma taxa de encarceramento de 714 presos
por cada 100.000 habitantes(12).
Para se ter uma melhor ideia do que é que isto representa,
em Portugal (que é o país da União Europeia
com a taxa de encarceramento mais elevada), essa taxa era, em 1997,
de 145 presos por cada 100.000 habitantes(13),
enquanto que em Singapura, em 2000, essa mesma taxa era de 255 presos
por cada 100 000 habitantes(14).
Tendo em conta os números referentes aos níveis
de pobreza e de desigualdades sociais nos países nórdicos
e nos Estados Unidos, e na medida em que, em termos sociológicos,
se pode dizer que em cada tipo de modelo social (neste caso, o modelo
social liberal e o social-democrata) existe uma relação
sistémica entre, por um lado, o nível de despesas
sociais e o nível de desigualdades sociais estruturais (em
2001, em países como a Suécia e a Dinamarca, a percentagem
das despesas sociais em relação ao PIB era de 29,2%
e de 28,9%, enquanto que nos Estados Unidos essa mesma percentagem
era de 14,8%)(15),
e que, por outro lado, existe uma relação sistémica
entre essas mesmas desigualdades sociais e as taxas de criminalidade
e de encarceramento, o que se parece, então, passar nos Estados
Unidos nos últimos anos é o uso da prisão em
massa como estratégia de luta contra a pobreza (ver s.f.f.
a posição que este último país ocupa
no gráfico em baixo, que dá conta da relação
entre os gastos com as despesas sociais, em percentagem do PIB,
e a taxa de encarceramento, e que, basicamente, se lê da
seguinte forma: quanto menor é o nível de gastos
em despesas sociais - à esquerda - maior é a taxa
de encarceramento - à direita)(16).

Tendo ainda em conta os dados apresentados anteriormente, relativamente
às taxas de encarceramento dos Estado Unidos, bem como os
dados que se seguem, as tão propaladas ideias de que, neste
mesmo país existiria uma fraca intervenção
estatal no mercado de trabalho (típica dos Estados mais liberais),
e que (por isso mesmo) os níveis de desemprego seriam substancialmente
mais baixos do que na Europa, necessitarão, talvez, de ser
revistas. Isto porque, segundo alguns autores(17),
o nível actual das taxas de encarceramento dos Estados Unidos
- e, sobretudo, o seu crescimento nas últimas décadas,
é tão elevado (ver gráfico em baixo, s.f.f.
e comparar com as taxas mais recentes já apresentadas)(18)
- que tais factos por si só nos obrigam a ajustar e a recalcular
a sua taxa de desemprego dos últimos anos .

Os autores referidos anteriormente consideram, então, que,
dado o aumento exponencial das taxas de encarceramento verificado
principalmente nas últimas duas décadas e meia, se
deve passar também a incluir o número total de presos
no número total de desempregados deste mesmo país.
Isto porque enquanto que, na Europa, actualmente, só existe,
no mínimo, 1 preso (do sexo masculino)
para cada 20 desempregados - variando entre 1 preso para cada 20
e 1 preso para cada 50 desempregados
em toda a Europa - nos Estados Unidos, existe 1 preso para cada
3 desempregados(19).
Dada a enorme desproporção deste último rácio
e do nível das taxas de encarceramento entre a Europa e os
E.U.A., deve-se, então, ter em conta, que a elevadíssima
taxa de encarceramento nos Estados Unidos está, de facto,
a mascarar o potencial tamanho do seu mercado de trabalho e
do seu real número de potenciais desempregados, caso não
houvesse uma intervenção estatal - embora de natureza
penal - nesse mesmo mercado de trabalho. Ou seja, uma das principais
razões pelas quais as estatísticas do desemprego americanas
parecem ser tão positivas é precisamente porque cerca
de 2 milhões de potenciais trabalhadores (na sua esmagadora
maioria com baixas qualificações e que dificilmente
arranjariam emprego numa economia fortemente assente nas novas tecnologias
e no conhecimento) estão presos, e portanto, não entram
nas estatísticas do (provável) desemprego e não
são considerados como fazendo parte da força de trabalho.
Além disso, segundo os autores citados, a elevadíssima
taxa de encarceramento poderá produzir no futuro um aumento
significativo da taxa de desemprego porque as perspectivas de emprego
dos ex-condenados serão bastante más, passando a ser
fortes candidatos a desempregados de longa duração
(ou, então, a regressar à prisão).
Assim, se considerarmos a rápida expansão do sistema
penal americano durante as últimas décadas como uma
intervenção estatal no mercado de trabalho, e se todos
os presos forem incluídos nas taxas de desemprego, - tanto
os da Europa como os dos Estados Unidos - vemos que a taxa
de desemprego americana sobe, em média, para um valor superior
ao da taxa de desemprego média na Europa desde 1975.
Ou seja, se recalcularmos as taxas de desemprego dos Estados Unidos,
passando também a incluir o número de presos nessa
mesma taxa, vemos, por exemplo, que durante a época de 80,
a sua taxa de desemprego nunca foi menor do que 7%. Outro exemplo:
em 1995, a taxa oficial de desemprego da Alemanha era de 7.1%, enquanto
que a dos E.U.A. era de 5.6%. No entanto, se recalcularmos essa
mesma taxa passando também a incluir o número de presos
de cada país, a taxa de desemprego na Alemanha aumenta apenas
para 7.4, enquanto que a taxa dos E.U.A. aumenta dos referidos 5.6
para 7.5%(20).
A aparente boa performance do mercado de trabalho americano, no
que se refere a uma taxa (oficialmente) baixa de desemprego, parece
acabar, assim, por depender de uma elevadíssima taxa de encarceramento,
encarceramento este que acaba por representar, numa base per
capita, uma factura pesadíssima para os contribuíntes,
dado que as despesas relacionadas com o encarceramento (prisões,
guardas prisionais, tribunais, etc.) têm vindo a disparar
nas últimas décadas (ver gráfico em baixo,
s.f.f.)(21).
Este último facto não deixa de ser irónico,
já que a retórica política para justificar
os cortes drásticos nas despesas sociais a que se tem vindo
a assistir neste país nos últimos anos assenta precisamente
no argumento de que as contribuições dos cidadãos
para os cofres do Estado seriam excessivamente elevadas.

Os Estados Unidos acabam, assim, por ter um não-Estado-Providência
muito caro para os contribuintes. A redução das despesas
com a segurança social a que se tem vindo a assistir neste
país nos últimos anos (nomeadamente através
da abolição da AFDC - Aid to Families with Dependent
Children) não se parece, então, constituir como uma
verdadeira e própria economia para as finanças públicas,
mas somente constituir-se como uma transferência de recursos
entre os diferentes sectores do Orçamento: das despesas sociais
para as despesas com a repressão - do «Estado Social»
ao «Estado Penal» (ver gráfico em baixo, s.f.f.).
Notas:
(1) Mark Blyth
e Jonathan Hopkin, How
Many Varieties of Capitalism? Structural Reform and Inequality in
Western Europe , 2004, pág. 12
(2) Manuel Castells
e Pekka Himanen, The Information Society and the Welfare State:
The Finnish Model, 2003, págs.78/82, Oxford University Press
(3) Blyth e Hopkin,
idem, ibid.; Castells e Himanen, ibid., pág.78
(4) Andrew Shepard,
citado em Blyth e Hopkin, ibid., pág.14.
(5) Fonte: David
Gordon, Eradicating
Poverty in the 21st Century: When Will Social Justice Be Done?,
2004, pág.7, disponível em:
(6) Castells e Himanen,
ibid., págs.78/82
(7) Disponível
em: http://www.lisproject.org
(8) Dharam Ghai,
Social
Security Priorities and Patterns: A Global Perspective, 2004,
pág.23, International Institute for Labour Studies, ILO:
Geneva
(9) Joseph Stiglitz,
Globalização: A Grande Desilusão, 2002, Eds.
Terramar
(10) Castells
e Himanen, ibid., pág.79; Colin Hay, What's
Globalization Got to Do With It?, 2003
(11) Disponível
em: http://news.bbc.co.uk
(12) Libération,
6 de Fevereiro de 2006, pág. 9
(13) Loic Wacquant,
As Prisões da Miséria, 2000, pág. 76, Edições
Celta
(14) Castells
e Himanen, ibid., págs.78/82
(15) Disponível
em: http://www.oecd.org
(16) Colin Hay,
idem
(17) Bruce Western
e Katherine Beckett, How
Unregulated is the U.S. Labor Market? The Penal System as a Labor
Market Institution, 1999, American Journal of Sociology, vol.
104; Colin Hay, idem
(19) Fonte: Sourcebook
of Criminal Justice Statistics, 2001, quadro 6.23
(18) Bruce Western
e Katherine Beckett, idem, pág.12
(20) Bruce Western
e Katherine Beckett, idem, pág.12, quadro 2
(21) State
Prison Expenditures, Bureau of Justice Statistics, U.S. Department
of Justice
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