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PARLAMENTO EUROPEU, Bruxelas, Junho de 2007

 

O fascismo de fato e gravata
Texto de João Viriato

Assistiu-se no Parlamento Europeu a um debate organizado pelo Partido Socialista Europeu sobre o preocupante crescimento do neo-fascismo na Europa e sobre o papel que a juventude pode desempenhar no combate a esta tendência.

Activistas de vários países vieram ao Parlamento para partilhas as suas experiências e as suas lutas, assim como para dar a sua opinião sobre quais devem ser os caminhos a seguir para impedir o recrudescimento do fascismo.

Foram focados casos específicos, como a Alemanha que, por motivos históricos óbvios, se destaca neste tipo de discussões. Neste país há três partidos com representação nos órgãos de poder que professam ideias de extrema-direita, e que funcionam ao mesmo tempo em competição e em coligação, conforme demonstrado na palestra de Ulrich Schneider, secretário-geral da FIR (Federação Internacional de Resistentes), organização de combate ao avanço do fascismo. O mais poderoso desses partidos é o NPD, agitador no parlamento e nas ruas, que em algumas tentativas de revisão histórica, relativiza o holocausto, apresentando a Alemanha como vítima.

Este partido participa frequentemente em acções em outros países, como Portugal, numa demonstração de que, ao contrário do que se poderia supor, há uma unidade bastante alargada na acção da extrema-direita na Europa. Porém, a Alemanha, muito devido à memória histórica, é dos países onde as organizações e ideias anti-fascistas têm mais força e influência. Ainda assim, o orador concluiu que a sociedade devia ser mais pró-activa, não agindo apenas por reacção, mas antecipando-se aos movimentos de influência nazi.

Merece especial atenção também o caso polaco, apresentado por Józef Pinior, uma vez que este é um país no qual a extrema-direita está no poder. A Polónia é um exemplo sintomático de como as políticas mais puramente neo-liberais descambam em situações ainda mais perigosas.
Depois da queda do regime comunista em 1989, as pessoas esperavam aquilo que se anunciava como os dias de prosperidade e felicidade, graças ao capitalismo. Porém, o que sucedeu foi precisamente o contrário. A "terapia de choque" aplicada no país, com a sua maré de privatizações, desregulamentação da economia e demissão do Estado do seu papel, resultou num aumento brutal do desemprego e numa tremenda deterioração das condições sociais.

No meio de tudo isto, a institucionalização democrática foi um falhanço, em parte pela falta de clareza ideológica da esquerda. Os ex-comunistas, transformados em sociais-democratas, foram apoiantes e propulsores da terapia de choque, o que deixou caminho aberto aos populistas para se apresentarem como aqueles que realmente se preocupam com os problemas sociais.

Assim, enquanto os partidos democráticos se preocupavam em liberalizar ao máximo a economia, a extrema-direita, quase sem se dar por isso, tomava o poder. E a Polónia chegou ao estado actual: o neo-fascismo, o anti-semitismo e o fundamentalismo católico são vistos no mesmo plano que a social-democracia ou a democracia-cristã.

Neste país emergiu a extrema-direita de novo tipo. Já não há apenas sujeitos de cabeça rapada a espancar pessoas de etnias diferentes. Esta extrema-direita aparece na televisão de fato e gravata, sorridente e educada, apresentando-se não como os inimigos da liberdade e da democracia que são, mas como políticos com pontos de vista diferentes sobre a sociedade. É esta a tragédia que se deve evitar nas sociedades europeias. O racismo, o fascismo, a negação do holocausto ou o fundamentalismo religioso, não devendo ser silenciados à força, porque esse não pode ser o procedimento das democracias, não podem aparecer diante das pessoas num plano comum com as ideologias democráticas. Nunca deveremos admitir a comparação em planos iguais de distintos modelos de organização da sociedade com aquilo que é a completa negação da humanidade.