IRLANDA: o passado e o futuro
Texto e fotos de Renato Soeiro,
Março
de 2007

Foto: Renato Soeiro. Clique para aumentar
Quando, na passada segunda-feira, os líderes
do Sinn Féin
e do Democratic Unionist Party (DUP) se sentaram pela primeira
vez face a face no palácio de Stormont em Belfast, todos
sentiram o peso enorme deste encontro dos representantes máximos
de uma luta secular que marcou violentamente a vida de várias
gerações. Todos sabiam também que as memórias
desta guerra não se apagarão tão cedo. Não
desaparecerão facilmente as cicatrizes nas famílias
e nas suas comunidades, nem sequer talvez as marcas nesta cidade
ainda cheia de grades, de torres de vigia e de câmaras de
filmar, de muros intransponíveis que dividem bairros, que
cortam ruas, que separam mesmo em dois o jardim onde crianças
brincam e olham as árvores altas de além-muro sem
nunca terem visto os rostos das crianças que brincam do
outro lado. Em Belfast e por todo o lado, a história sente-se
com uma presença pesada e duradoura.
Mas, para além das divisões do passado, os dirigentes
compreenderam que os escassos 27 mil votos e 3,9% de percentagem
que nas últimas eleições separaram o DUP do
Sinn Féin significam que as duas forças políticas
estão para ficar, que as populações que neles
votaram são realidades incontornáveis que os obrigam
a assumir a responsabilidade de dotar esta parte da Irlanda de
um parlamento e de um governo próprios, que possam finalmente
promover um desenvolvimento que não parece ser possível
esperar de decisões tomadas em Londres ou mesmo em Dublin.
Numa Europa que esbate as suas barreiras, o contraste do sucesso
do “tigre celta” com o atraso que sofrem os seus irmãos
do Norte torna-se ainda mais insuportável. É grande
a esperança neste novo governo de unidade, que não
se limitará ao DUP e ao Sinn Féin, já que
os acordos de St. Andrews, como já antes o de Sexta-feira
Santa, prevêem a formação do governo a partir
de uma aplicação do método de Hondt aos resultados
eleitorais.
O mundo inteiro saudou a coragem realista partilhada pelos dois
protagonistas desta histórica convergência forçada
pela vida. Mas há uma diferença entre Paisley e Adams
que foi pouco notada e comentada, e que não será talvez
esbatida no futuro mas que, pelo contrário, se poderá tornar
cada vez mais evidente e acentuada. Essa diferença chama-se
Irlanda. Não do Norte, não do Sul, mas simplesmente
Irlanda. O DUP é um partido do Norte, dos 6 condados sob
domínio britânico. O Sinn Féin é um
partido da Irlanda, dos 6 condados do Norte e dos 26 condados da
República, tem uma agenda política para toda a Irlanda
e o seu peso político aumenta dos dois lados da linha que
marca a fatídica partição da ilha. Para o
Sinn Féin, as eleições de Março nos
6 condados foram um momento de um processo eleitoral que continua
em Maio ou Junho nos outros 26, com propostas comuns. Propostas
para a unificação, é claro, mas também
para a economia, para a justiça e a segurança, para
os serviços públicos e para a política social
de toda a ilha. A prazo, esta marca essencial, que é uma
marca histórica presente já nos pioneiros do movimento
nacionalista e republicano, poderá fazer toda a diferença.
A participação no governo do Norte não deixará de
ser observada com toda a atenção também pelos
eleitores da República, a braços com os problemas
causados por um desenvolvimento rápido mas profundamente
marcado pela desigualdade das soluções neoliberais.
No último congresso do Sinn Féin, realizado em Dublin
no fim-de-semana anterior às eleições, a grande
novidade que atraiu a atenção dos jornalistas foi
a presença e a intervenção, pela primeira
vez, de dirigentes dos maiores sindicatos e do Irish Congress of
Trade Unions, a confederação sindical irlandesa,
que até agora frequentavam os congressos do partido trabalhista
social-democrata. Hoje, no programa e nas propostas do Sinn Féin,
os irlandeses começam a entrever um futuro diferente. An
Ireland of equals. Unida, democrática e justa.
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| Muro de Belfast.
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