1 de Dezembro, dia mundial de luta contra
a SIDA
De acordo com o ultimo relatório
da UNAIDS, há cerca
de 39,5 milhões de pessoas com SIDA. Em 2006 morreram mais
de 2.9 milhões de pessoas com doenças directamente
relacionadas com a SIDA. Só este ano, registaram-se 4.3
milhões de novas infecções pelo HIV, sendo
2.8 milhões na Africa sub-sariana. Na Europa de Leste e
na Ásia Central há indicações de que
as taxas de infecção aumentaram mais de 50% desde
2004. Texto de CARMEN HILÁRIO
Os objectivos da campanha
contra o HIV/SIDA e como definido na campanha do Millennium das
Nações Unidas, estão
longe de ser alcançados: o travar da expansão da
epidemia até 2015. Continua a faltar um compromisso firme
para a angariação dos 20 a 23 biliões de dólares
necessários para a campanha internacional. A epidemia da SIDA continua a alastrar e há provas inquietantes
de que em vários países se assiste ao ressurgimento
de taxas crescentes de infecção pelo HIV.
Morrem 30000 pessoas por dia, 11 milhões de pessoas por
ano, sobretudo nos países em desenvolvimento, porque não
recebem os cuidados de saúde que necessitam. O Malawi, por
exemplo, não consegue suportar os custos dos cuidados de
saúde: 10% da população é HIV positiva
e o rendimento per capita é inferior a 400 euros.
Simultaneamente, nos países industrializados tenta-se alargar
a protecção das patentes de 5 a 15 anos, dependendo
dos países, para 20 anos. Mais, na maior parte dos seus
acordos bilaterais de comércio livre, estes países
integraram disposições que aumentam a protecção
das patentes além do que está previsto no acordo
TRIPS. O medicamento Lamivudine, hoje o mais utilizado no tratamento
do HIV, tem um custo de produção inferior a 43 euros
mas a sua versão patenteada é vendida a 1730 euros,
sem taxas, em França.
Cinco anos após a declaração de Doha, que
reconhece que " cada Estado membro da OMC tem o direito de
emitir licenças compulsivas e a liberdade de determinar
os requisitos segundo os quais essas licenças são
emitidas", a OMS alerta para o facto de que 74% dos medicamentos
para a SIDA ainda se encontram sob domínio exclusivo da
indústria farmacêutica e que 77% dos africanos continuam
sem acesso a tratamento. A Declaração da OMS de 30
de Agosto de 2003 sobre os medicamentos genéricos visou
dar resposta à crise no acesso aos medicamentos enfrentada
pelos países em desenvolvimento. Contudo, acabou por introduzir
um processo complexo e moroso à exportação
de medicamentos, quando o necessário era um mecanismo célere
e automático. Apesar da sua manifesta ineficiência,
a declaração da OMS acabou por entrar em vigor em
Dezembro de 2005, depois da OMS ter rejeitado o pedido de vários
Estados no sentido de simplificar o procedimento para garantir
o acesso dos medicamentos aos mais pobres. Pedro Cheques, Director
do Programa Nacional para a SIDA do Brasil denunciou que "o
uso da declaração de Doha é na prática
quase impossível por causa da pressão política
da administração Bush".
O actual acordo TRIPS condena à morte milhões de
pobres todos os anos, constituindo uma massiva violação
dos direitos humanos.
Ao mesmo tempo, a industria farmacêutica privada beneficia
de forma obscena dos benefícios da investigação
pública, ocupando o topo das 500 maiores fortunas na maior
parte das duas ultimas décadas, sendo que gasta, em média,
duas vezes mais dinheiro no marketing do que na investigação
de novos medicamentos.
A protecção da industria farmacêutica é feita
com base no pretexto de ajudar a investigação, contudo
a investigação promovida por esta industria é orientada
comercialmente e, menos de 10% da investigação médica é orientada
para epidemias que atingem 90% da população mundial
e apenas 1% dos novos medicamentos colocados no mercado se destinam
ao tratamento das grandes epidemias que atingem os países
em desenvolvimento.
A aplicação, desde 1 de Janeiro de 2005, do acordo
TRIPS aos medicamentos de primeira linha ARV, fez aumentar, no
Brasil, o custo médio dos medicamentos de 1300 dólares
em 2003 para 2500 dólares, minando a possibilidade de sustentabilidade
de cobertura universal.
Os medicamentos necessários para salvar milhões de
vidas não podem ser considerados como quaisquer outras mercadorias
e estar à mercê das leis de mercado. Há que
exercer pressão sobre as autoridades de cada país
no sentido de apoiarem a investigação pública
e de obrigarem as empresas farmacêuticas a dedicarem uma
percentagem superior dos seus lucros à investigação
dos reais problemas de saúde pública, como as grandes
epidemias, em vez de essencialmente a produtos de natureza comercial.
Urge pois reconhecer que 5 anos após a sua adopção
a declaração de Doha é um completo fracasso.
A OMC não recebeu qualquer notificação para
o uso compulsivo de medicamentos quer de países exportadores
quer de importadores.
A União Europeia e os seus Estados membros deveriam, conjuntamente
com os países em desenvolvimento, procurar alterar o acordo
TRIPS na OMC, permitindo a todos a produção ou importação
dos medicamentos genéricos necessários para enfrentar
as epidemias mais graves.
Há pois que encetar todos os esforços no sentido
de que os Estados membros e a Comissão aumentem significativamente
a sua contribuição para o HIV-SIDA. Por isso fazemos
nossas as palavras desta campanha:

Carmen Hilário
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